Recuos de Donald Trump e tensão com o Irã expõem limites da estratégia dos EUA e fragilizam narrativa de força no conflito
A retórica de Donald Trump contra o Irã e os recuos anunciados após a extensão do cessar-fogo — depois de sucessivas ameaças a Teerã — evidenciam mais do que uma inflexão pontual. O movimento do republicano revela um conjunto de constrangimentos marcado por idas e vindas, pressões internas, limites institucionais e pela própria complexidade estratégica do adversário.
Ao Metrópoles, o professor de direito internacional Alberto do Amaral Júnior explicou que os Estados Unidos não têm uma estratégia clara para o pós-conflito com o Irã.
Segundo ele, a atuação norte-americana tem se concentrado em ataques a instalações nucleares e à capacidade iraniana de mísseis, sem planejamento consistente para o cenário posterior.
Essa lacuna ajuda a explicar, afirma o especialista, os recuos de Trump, inclusive em relação ao Estreito de Ormuz.
Para Amaral Júnior, o Irã opera em uma lógica de guerra assimétrica, elevando custos globais do conflito, enquanto as ameaças de Washington não se concretizam, expondo fragilidades na estratégia norte-americana.
Cessar-fogo prorrogado sob pressão
- A decisão de estender o cessar-fogo com o Irã, mediado pelo Paquistão, foi acompanhada de novas exigências e da manutenção de forte pressão militar.
- Washington condicionou a trégua à apresentação de uma posição unificada por parte de Teerã, no entanto, manteve o bloqueio naval feito pelos EUA em áreas estratégicas do Estreito de Ormuz.
- O governo paquistanês, liderado por Shehbaz Sharif, tem atuado como mediador e defende a manutenção do diálogo.
- No entanto, o Irã rejeita parte das tratativas.
- O porta-voz da diplomacia iraniana, Esmaeil Baghaei, classificou ações militares dos EUA como “pirataria marítima” e questionou a credibilidade de Washington nas negociações.
Idas e vindas
Antes de anunciar a extensão da trégua, o presidente adotou um discurso mais agressivo. Dias antes, já havia elevado o tom ao afirmar que o Irã enfrentaria “problemas como nunca viu” se não aceitasse negociar.
Ao mesmo tempo, insistia na possibilidade de um “acordo justo” que deixaria todas as partes satisfeitas.
A retórica contraditória de Trump se mantém. Mesmo com a trégua em vigor, ele alterna entre ameaças e acenos diplomáticos, afirmando, por um lado, que pode intensificar a ofensiva e, por outro, que mantém boas conversas com o regime dos aiatolás.
Em um curto intervalo, o norte-americano afirmou ter “todo o tempo do mundo para negociar, mas o Irã não” e, em seguida, voltou a ameaçar ampliar a ofensiva contra Teerã.
Trump declarou ainda que as forças norte-americanas já atingiram 78% dos alvos planejados no conflito e indicou que os ataques podem ser retomados para atingir o restante.
“Se eles não quiserem fazer um acordo, então eu finalizarei o ataque militarmente com os outros 25% dos alvos”, declarou.
Questionado sobre a possibilidade de uso de armas nucleares, ele rejeitou a hipótese, classificou a pergunta como “estúpida” e argumentou que não há necessidade desse tipo de escalada, ao afirmar que os EUA já teriam causado danos significativos à estrutura militar iraniana.

Nova rodada de negociações
- Em meio ao cenário de instabilidade, a Casa Branca anunciou o envio de uma delegação ao Paquistão para tentar retomar as negociações de paz com o Irã.
- O grupo será liderado pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner, e deve se reunir com representantes iranianos no sábado (25/4).
- Paralelamente, o chanceler iraniano Abbas Araghchi está no país, mas nega que haja previsão de nova rodada formal de negociações com os EUA.
Recuo que revela limites
O professor Vitor de Pieri, de geografia humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que os recuos não são apenas táticos, mas resultado de um cenário mais amplo de restrições. Segundo ele, a condução do conflito sem aval do Congresso fragiliza a legitimidade da ação norte-americana e aumenta a pressão interna sobre o governo.
O início da ofensiva militar deveria ter sido previamente comunicado e, em última instância, autorizado pelo Congresso dos EUA, o que fragiliza a legitimidade da ação norte-americana e aumenta a pressão interna sobre o governo.
No sistema político do país, decisões de guerra ou de engajamento militar mais amplo devem, em tese, ser submetidas ao Legislativo, que exerce função de controle sobre o uso da força pelo Executivo.
O especialista aponta que os ataques ao Irã foram conduzidos de forma unilateral pelo Executivo, apoiados em interpretações ampliadas dos poderes presidenciais.
“Diante desse conjunto de fatores, os recuos de Trump revelam mais do que hesitação: indicam o reconhecimento de limites. Limites institucionais, pela ausência de respaldo do Congresso; limites políticos, diante do desgaste interno; e limites geopolíticos, frente a um Irã bem posicionado e resiliente“, explica.
Cenário aberto
Os recuos de Trump, então, não indicam abandono do confronto, mas uma reconfiguração da estratégia diante de limites cada vez mais evidentes, o que, na prática, desmonta a narrativa de controle absoluto dos Estados Unidos.
Ele destaca que o conflito é complexo, sobretudo diante de um Irã que não é facilmente neutralizável, por sua posição estratégica e influência sobre o mercado global de petróleo.
Do lado interno, Trump ainda enfrenta desgaste político e pressões ligadas às eleições de meio de mandato, o que eleva o custo de uma guerra prolongada e transforma o conflito em risco adicional.
Com informações do portal Metrópoles
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