A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano — patamar mais alto em quase duas décadas — transformou o Brasil num paraíso para rentistas à custa do desenvolvimento nacional.
Enquanto a inflação atingiu o teto da meta (4,5%) e o PIB cresceu apenas 0,1% no terceiro trimestre de 2025, o governo viu 53,4% do orçamento da União comprometido com juros e amortizações da dívida pública. A dívida bruta encerrou o ano em R$ 8,5 trilhões (78,3% do PIB), com despesas líquidas com juros projetadas para superar R$ 1 trilhão em 2025 — equivalente a 8% de toda a riqueza produzida pelo país. Trata-se de uma transferência maciça de renda dos trabalhadores para banqueiros e especuladores, sem gerar um único emprego ou investimento produtivo.
Ao manter a taxa em 15% ao ano pela quinta reunião consecutiva, o Copom confirmou uma estratégia que aprofunda os efeitos contracionistas sobre a economia brasileira.
A decisão era esperada pelo mercado financeiro, mas reforça a percepção de que o Banco Central opta por privilegiar o controle das expectativas inflacionárias mesmo diante de custos crescentes para o crescimento, o emprego e as contas públicas.
Mais pressão
A manutenção da Selic aprofundou o desalinhamento entre o Banco Central e o governo federal. O presidente Lula e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendem cortes imediatos, classificando os juros reais como insustentáveis para o crescimento. A ministra Gleisi Hoffmann foi além, apontando impacto direto sobre o aumento da dívida pública.
Do lado produtivo, a Confederação Nacional da Indústria alerta que os juros atuais estão vários pontos percentuais acima do nível necessário para controlar a inflação e já comprometem o acesso ao crédito, a confiança empresarial e a competitividade da indústria.
O resultado é um “Custo Brasil” ampliado, que compromete a competitividade da indústria e trava investimentos. Não por acaso, o Índice de Confiança do Empresário Industrial registrou em janeiro de 2026 seu pior resultado para o mês em dez anos (48,5 pontos), refletindo a paralisia do setor produtivo diante de um custo de capital insustentável.
Para centrais sindicais como CTB, CUT e Força Sindical, a decisão representa “boicote ao povo brasileiro” e “irresponsabilidade social”. A denúncia das entidades de trabalhadores é de que a política favorece “banqueiros e rentistas” enquanto penaliza famílias com juros do cartão de crédito superiores a 450% ao ano. Com a autonomia do BC blindando decisões técnicas de pressões políticas legítimas, o país enfrenta um dilema institucional que ameaça a coerência de sua política econômica num momento de fragilidade global exacerbada pelas turbulências da política tarifária norte-americana.
Inflação em arrefecimento
O argumento central do Copom segue sendo o mercado de trabalho aquecido, que sustentaria a demanda e dificultaria a convergência da inflação à meta. Em português claro, o mercado financeiro que controla o Banco Central, defende menos emprego, menos renda para que os trabalhadores não gastem tanto. Ainda assim, o próprio comunicado reconhece que a atividade econômica está em “trajetória de moderação” e que a inflação apresenta “algum arrefecimento”.
A prévia do IPCA de janeiro ficou em 0,20%, abaixo do mês anterior, e o acumulado em 12 meses chegou a 4,5% — exatamente no teto da meta. Para críticos da decisão, o dado reforça que a inflação atual decorre mais de choques de custo do que de excesso de demanda, tornando os juros elevados um remédio desproporcional.
Juros reais entre os mais altos do mundo
Com a Selic em 15%, o Brasil permanece como o segundo país com maior juro real do planeta, atrás apenas da Rússia. A taxa real brasileira supera a de economias como Argentina, México e Turquia, consolidando o país como um dos ambientes mais caros para o crédito produtivo.
Esse cenário tem efeitos diretos sobre empresas e famílias. O encarecimento do capital reduz investimentos, restringe a oferta de crédito e pressiona o endividamento. No consumo, os impactos são ainda mais visíveis: juros do cartão de crédito rotativo acima de 450% ao ano transformam o sistema financeiro em um fator de deterioração das condições de vida.
Dívida pública e transferência de renda
Outro efeito negativo recorrente da Selic elevada é o aumento explosivo do custo da dívida pública. Estimativas indicam que o Brasil fechou 2025 com dívida de R$ 8,5 trilhões, cerca de 78% do PIB, e despesas líquidas com juros superiores a R$ 1 trilhão — algo próximo de 8% do PIB.
Mais da metade do orçamento da União tem sido comprometida com juros e amortizações, reduzindo o espaço fiscal para investimentos em saúde, educação, infraestrutura e políticas sociais. Sindicatos e economistas críticos classificam o mecanismo como uma transferência sistemática de renda da sociedade para rentistas e instituições financeiras.
Um freio prolongado
Ao indicar que pretende manter os juros elevados por “período bastante prolongado”, o Copom sinaliza que a redução da Selic não está no horizonte imediato. O resultado é um ambiente de incerteza prolongada, com baixo crescimento, investimento retraído e custos sociais crescentes.
A decisão unânime do colegiado, agora composto apenas por indicados do atual governo, reforça a autonomia técnica do Banco Central, mas também amplia o debate político sobre os limites dessa estratégia. Para críticos, insistir em juros tão elevados num contexto de inflação em desaceleração pode aprofundar desigualdades, comprometer o desenvolvimento e condenar o país a mais um ciclo de crescimento fraco.
Com informações do Vermelho
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