Lula reage a Flávio Bolsonaro e Trump e diz que Brasil não aceitará ser tratado como “republiqueta”

“Traidor da pátria”, afirmou Lula sobre Flávio Bolsonaro, após articulação junto aos EUA contra o Brasil: “Joaquim Silvério dos Reis ficaria envergonhado”

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu nesta sexta-feira (29) às declarações do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e à atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em território estadunidense, afirmando que o Brasil não aceitará ser tratado como “republiqueta” e chamando o parlamentar de “traidor da pátria” após articulação junto aos Estados Unidos contra o Brasil.

A declaração foi feita durante discurso de Lula em Sergipe, em evento de anúncio de investimentos de R$ 72,5 bilhões da Petrobras no estado. O presidente criticou a decisão do governo Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, medida anunciada por Rubio e prevista para entrar em vigor em 5 de junho.

“Hoje estou muito triste. É um dia decepcionante. Estou muito triste com a notícia de que o secretário dos Estados Unidos da América, um tal de Marco Rubio, disse que os nosso criminosos aqui são terroristas e que os americanos podem fazer intervenção”, afirmou Lula.

O presidente disse que as facções criminosas brasileiras devem ser combatidas pelo próprio Estado brasileiro, sem ingerência externa. Segundo ele, PCC e Comando Vermelho são “terroristas” para as comunidades, para as periferias e para a sociedade brasileira, mas não se enquadram na lógica de atuação militar e externa defendida pelo governo Trump.

“Primeiro porque esse tal de PCC são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia desse país. Eles incomodam as famílias, o bairro, as cidades. Eles roubam tudo do povo. Então eles são terroristas e nós vamos combater eles aqui dentro”, declarou.

Lula afirmou que seu governo aprovou medidas para enfrentar facções e o crime organizado, citando a Lei Antifacção e uma lei de combate ao crime organizado. “Nós aprovamos uma Lei Antifacção e uma lei de combate ao crime organizado. E vamos combater. Eles não são os terroristas que o Trump quer. O Trump quer o Osama Bin Laden não sei das quantas. E nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá”, disse.

O presidente também apontou a origem de armas contrabandeadas para o Brasil e cobrou cooperação dos Estados Unidos em relação a brasileiros investigados ou condenados que estariam em território estadunidense. “As armas importadas que são contrabandeadas para o Brasil vêm dos Estados Unidos. Vem de lá”, afirmou.

Lula disse ter entregado documentos a Trump e cobrado ações concretas contra o crime organizado. “Eu entreguei um documento para o Trump. O Brasil está disposto a trabalhar para combater o crime organizado, e vamos começar pelo seu estado, Delaware, que tem lavagem de dinheiro de brasileiro. Vamos começar por aí”, declarou.

Na sequência, o presidente citou nomes de brasileiros que, segundo ele, deveriam ser entregues pelas autoridades dos Estados Unidos. “Vamos começar por entregar o Ramagem, que está condenado a 16 anos e está escondido lá. Vamos começar entregando o maior contrabandista de combustíveis desse país, o Ricardo Magro, e ele está morando em Miami. Eu entreguei para o Trump e o nome dele e a fotografia da casa dele. Quer combater o crime organizado? Me entregue os nossos que estão lá nos Estados Unidos”, afirmou.

Lula elevou o tom ao defender a soberania brasileira. “Nós não aceitamos sermos tratados como moleques. Não aceitamos sermos tratados como uma republiqueta. Eu estive por três horas com o presidente Trump e entreguei quatro documentos, um deles sobre o combate ao crime organizado”, disse.

O presidente também criticou Marco Rubio por não ter participado da reunião com Trump e associou sua ausência à relação com aliados da família Bolsonaro. “O senhor Marco Rubio não estava lá. Possivelmente porque ele estava preparado para ajudar um filho de Bolsonaro que é candidato à reeleição aqui nesse país e não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil”, afirmou.

Em uma das falas mais duras do discurso, Lula comparou a articulação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos à traição histórica de Joaquim Silvério dos Reis. “Não tem traidor… Joaquim Silvério dos Reis ficaria envergonhado se soubesse que tem um candidato a presidente que vai para os Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil. Se ele fosse pedir intervenção para prender miliciano, eles ficavam presos lá. Essa é a verdade”, declarou.

O contexto da reação envolve o anúncio feito por Marco Rubio de que o Departamento de Estado dos EUA designará PCC e Comando Vermelho como “terroristas globais especialmente designados”, tradução do termo “Specially Designated Global Terrorists”. A medida também prevê o enquadramento das duas facções como “organizações terroristas estrangeiras”, tradução de “Foreign Terrorist Organizations”.

O governo Lula é contrário à iniciativa defendida pelos Estados Unidos e alerta para riscos à soberania brasileira. A declaração de Rubio ocorreu na mesma semana em que Flávio Bolsonaro foi aos EUA, onde seu irmão, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), deputado cassado, atua para estimular a interferência do governo Trump no Brasil em razão da condenação de Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos de prisão no inquérito da trama golpista.

Lula afirmou ter conversado diretamente com Trump sobre a responsabilidade dos dois países na defesa da democracia e da integridade territorial das nações. “Eu fiz questão de dizer ao presidente Trump, olhando na cara dele: presidente, tenho 80 anos e o senhor vai completar 80 no dia 14 de julho. Dois homens de 80 anos, presidentes das duas maiores democracias desse lado do mundo, não podem brincar de fazer política”, disse.

“A gente tem que passar respeito para a sociedade, valorizar a democracia, o multilateralismo, a proteção da integridade territorial das nações. Isso aqui não é um país qualquer. Isso aqui é um país muito grande”, prosseguiu.

O presidente também afirmou ter preocupação com interesses externos sobre riquezas naturais brasileiras, como minerais críticos, terras raras, ouro, diamante, água doce e a Amazônia. “Eu tenho preocupação porque temos muitos minerais críticos, terras raras, muito minério, muito ouro, muito diamante, a maior floresta tropical do mundo, 12% da água doce… Daqui a pouco ele diz: ‘a Amazônia é nossa’. Não”, afirmou.

Lula defendeu uma política externa baseada em respeito igualitário entre países, independentemente de seu tamanho ou poder econômico. “Eu trato um país pequeno com o mesmo respeito com que eu trato a China, a Rússia ou os Estados Unidos. Eu não falo grosso com a Bolívia e fico bonzinho com os Estados Unidos. Eu falo educadamente com os dois”, declarou.

Ao final da crítica, o presidente cobrou do Congresso a aprovação da PEC da Segurança Pública, que, segundo ele, permitirá a criação de um Ministério da Segurança Pública com estrutura, recursos e inteligência para enfrentar o crime organizado. “Então não brinquem com a soberania desse país, com a nossa democracia, não duvidem das coisas que nós fazemos nesse país”, afirmou.

“Se quiserem combater o crime organizado, não precisa pedir ajuda para ninguém. Aprove a PEC da Segurança Pública que está no Senado, aprove a PEC. Aprove a PEC que no mês seguinte terá um Ministério da Segurança Pública nesse país. Eu não vou criar um ministério de enfeite, sem dinheiro”, disse Lula.

O presidente afirmou ainda que a proposta deve vir acompanhada de investimentos, fortalecimento da PF (Polícia Federal), inteligência e criação de uma guarda especial. “Para aprovar a PEC vai ter que aprovar dinheiro, uma nova Polícia Federal, muito investimento em inteligência. Vamos ter que criar uma guarda especial, com soldados altamente preparados, para a gente combater o crime organizado aqui. E se o Trump quiser ajuda, nós vamos ajudá-lo a combater o crime organizado dentro dos Estados Unidos também”, concluiu. 

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