Um mês de guerra no Irã: Trump recua, Teerã resiste e mundo paga a conta

Decorrido um mês desde o lançamento da “Operação Fúria Épica” pelos Estados Unidos e da “Operação Leão Rugidor” por Israel, em 28 de fevereiro de 2026, o conflito no Oriente Médio entrou em uma fase de impasse estratégico que expõe as limitações do poder militar convencional diante de uma resistência assimétrica. O que começou como uma aposta em mudança de regime rápida em Teerã transformou-se em um desgaste geopolítico, econômico e diplomático para Washington, enquanto o Irã demonstra capacidade de retaliação que impacta cadeias globais de energia e segurança.

Após trinta dias de ofensiva contra o Irã, o que se desenha não é uma vitória rápida, mas um quadro de desgaste crescente para os Estados Unidos e Israel. A campanha que prometia enfraquecer Teerã em curto prazo se converteu em um impasse estratégico, revelando limites operacionais, políticos e diplomáticos.

A condução de Donald Trump expôs fragilidades que vão além do campo militar: o conflito passou a corroer a credibilidade internacional de Washington, ao mesmo tempo em que não entrega resultados concretos no terreno.

Recuos sucessivos e perda de iniciativa

Ao longo do primeiro mês, a estratégia de Donald Trump foi marcada por inflexões constantes, que evidenciam perda de controle sobre o curso da guerra.

Em 1º de março, o presidente afirmou que a operação levaria “um mês ou menos” para atingir seus objetivos. Em 23 de março, porém, anunciou a suspensão de ataques a infraestruturas energéticas iranianas por cinco dias e mencionou “conversações produtivas”. No dia seguinte, os EUA enviaram a Teerã um plano de paz de 15 pontos, segundo reportagens da Reuters e do New York Times.

A mudança de tom reflete pressões internas e externas: o preço do petróleo disparou para níveis recordes desde 2022, afetando a economia estadunidense; aliados regionais pediram cessar-fogo; e o Congresso questionou a legalidade da operação sem declaração formal de guerra.

A redução dos objetivos — de uma ofensiva que insinuava mudança de regime para ações pontuais — simboliza uma retração forçada. Trump ameaçou destruir infraestrutura energética iraniana, mas recuou e adiou o ultimato para abertura do Estreito de Ormuz. Houve também suspensão de ataques a usinas elétricas, após ameaça inicial. A suspensão de operações mais amplas, diante do risco de escalada regional, reforça a incapacidade de impor uma solução decisiva.

A retórica oscilante, alternando ameaças máximas com acenos à negociação, aprofunda a percepção de indecisão. Trump passou a defender um acordo com o Irã, mesmo após iniciar a ofensiva. Declarou publicamente que negociações eram “produtivas”, mas o Irã negou que existam. No plano externo, o fracasso em consolidar uma coalizão robusta expõe um isolamento incomum para padrões históricos dos EUA.

Antes: ameaça de “destruição total” do Irã; depois: Trump afirma que quer negociar e encerrar a guerra. O resultado é um quadro em que avançar implica riscos incontroláveis, enquanto recuar consolida a imagem de derrota política.

Irã impõe resistência e redefine o ritmo do conflito

A resposta iraniana foi o elemento mais disruptivo do conflito. Ao contrário das expectativas iniciais, Teerã não apenas resistiu como conseguiu impor seu próprio ritmo à guerra. O Irã lançou mísseis contra Israel após falas de Trump. Ataques também atingiram bases e países do Golfo (Bahrein, Catar, Arábia Saudita). 

Contra as expectativas iniciais de uma queda rápida do regime, o Irã apresentou uma resiliência que surpreendeu analistas e comandantes militares. A República Islâmica conseguiu degradar sistemas de radares dos EUA no Golfo Pérsico, afetando a capacidade de interceptação de mísseis em países aliados como Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

“Os EUA não têm como derrubar o governo iraniano sem invasão terrestre, o que traria baixas gigantescas. A topografia do Irã inviabiliza qualquer ação rápida. Os EUA simplesmente entraram num atoleiro e Trump não sabe como sair”, avalia o especialista em defesa Ali Ramos, consultado pela Agência Brasil.

Além da defesa territorial, Teerã expandiu o teatro de operações: atacou bases estadunidenses em seis países do Golfo, bloqueou o Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — e intensificou ataques por procuração via Hezbollah, Houthis e Forças de Mobilização Popular do Iraque

A combinação de ações indiretas, uso de aliados regionais e capacidade de coordenação militar elevou o custo da ofensiva. Internamente, o país evitou desorganização significativa, mantendo coesão política sob pressão. Ataques iranianos e de aliados atingiram: rotas marítimas estratégicas, bases dos EUA na Síria e infraestrutura energética regional.

Ao prolongar o conflito, o Irã transformou o tempo em arma estratégica — desgastando adversários que dependiam de uma vitória rápida para sustentar sua narrativa de força.

Ganhos políticos de Teerã e desgaste dos adversários

Mesmo sob bombardeios e sanções, o Irã acumulou avanços relevantes no campo político. A narrativa de soberania ganhou força, mobilizando apoio interno e ampliando legitimidade regional.

No plano internacional, Teerã se reposicionou, aprofundando relações com países e blocos que contestam a hegemonia dos EUA. Ao mesmo tempo, demonstrou capacidade de impor custos contínuos aos adversários, inviabilizando uma solução rápida.

Para os Estados Unidos e Israel, o efeito é inverso: aumento do desgaste sem ganhos estratégicos equivalentes.

Guerra se amplia e pressiona o sistema global

O conflito rapidamente extrapolou o eixo bilateral, gerando impactos sistêmicos. A instabilidade nos mercados de energia, a elevação das tensões no Oriente Médio e o risco de novas frentes de combate indicam um cenário de expansão.

A guerra se expande e gera impacto global a partir de uma crise energética internacional. Interrupções no petróleo e gás são piores que crises anteriores recentes. O Estreito de Ormuz parcialmente fechado, afeta o comércio global.

Ao mesmo tempo, cresce a resistência internacional a intervenções militares unilaterais. Países evitam alinhamento automático, refletindo uma mudança no equilíbrio global de poder.

A guerra deixa de ser apenas um confronto regional e passa a operar como fator de desordem internacional. Deixou de ser uma guerra localizada e virou crise sistêmica internacional, envolvendo múltiplos territórios: Líbano, Irã, Israel, Golfo Pérsico e Síria. A entrada dos Houthis do Iêmen e o apoio da Ucrânia aos países do golfo representam novos riscos de escalada.

Isolamento e fragilidade da liderança dos EUA

A dificuldade de Donald Trump em reunir apoio internacional consistente é um dos sinais mais claros de enfraquecimento.

Aliados tradicionais adotam cautela, potências emergentes recusam adesão e organismos multilaterais demonstram preocupação com a escalada. A ONU, a União Europeia, a China e potências do Sul Global condenaram os ataques iniciais como violação da soberania iraniana e do direito internacional. Até mesmo aliados históricos como Reino Unido e França expressaram reservas sobre a escalada. O padrão de grandes coalizões, comum em intervenções passadas, dá lugar a uma atuação unilateral fragilizada.

“O Irã vai ser o primeiro país da história que atacou tantas bases dos EUA ao mesmo tempo e sobreviveu. É por isso o desespero do Trump. Os países da região não vão mais confiar nos EUA no médio e longo prazo enquanto garantidor da sua segurança”, argumenta Ali Ramos

Esse isolamento amplifica a percepção de que Washington já não consegue organizar consensos globais em torno de suas ações militares.

Um novo mapa de poder no Oriente Médio

Após um mês de guerra, o conflito reconfigurou a arquitetura de segurança regional. Países do Golfo aceleraram pactos de defesa alternativos (Emirados com Índia, Arábia Saudita com Paquistão), reduzindo a dependência da proteção estadunidense.

Para o Irã, a sobrevivência do regime sob ataque reforça sua narrativa de resistência anti-imperialista. Para os EUA, o impasse expõe os limites do poder militar unilateral em um mundo multipolar. Para o mundo, a conta chegou alta: energia cara, rotas comerciais interrompidas e um precedente perigoso de guerra preventiva sem mandato internacional.

Como sintetizou um analista do International Crisis Group: “Não se trata mais de quem vence militarmente, mas de quem consegue transformar resistência em vantagem política”. Nesse tabuleiro, Teerã parece ter aprendido a jogar melhor do que Washington esperava.

Um beco sem saída estratégico

Ao fim do primeiro mês, o conflito aponta para um impasse estrutural.

Para os EUA e Israel, as alternativas são limitadas: escalar o confronto e correr riscos imprevisíveis ou recuar, consolidando a percepção de derrota.

Para o Irã, a estratégia de resistência prolongada continua produzindo resultados, ainda que com custos elevados. A liderança iraniana afirmou estar pronta para enfrentar tropas terrestres e “incendiá-las”.

O saldo é um equilíbrio instável, em que a incapacidade de vitória rápida se traduz em desgaste político crescente — especialmente para Washington e Tel Aviv — e em um cenário internacional cada vez mais fragmentado e imprevisível.

Com informações do Vermelho

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