Em meio a ataques dos EUA, Lula defende ampliação do Pix para o Mercosul

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu nesta terça-feira (30) que o Pix seja usado como referência para uma estrutura de pagamentos no Mercosul, em meio ao aumento das pressões externas sobre tecnologias financeiras e à disputa global em torno da soberania digital. A declaração foi feita durante discurso na 68ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, em Assunção, no Paraguai.

No discurso aos chefes de Estado reunidos no Paraguai, Lula afirmou que a integração financeira pode reduzir custos, estimular o comércio entre os países do bloco, ampliar o uso de moedas locais e aumentar a proteção regional diante de crises internacionais. O presidente também associou a agenda digital à necessidade de o Mercosul agir de forma conjunta em um cenário marcado por instabilidade geopolítica, protecionismo e fragmentação da economia mundial.

“Hoje nos confrontamos com uma região e mundo profundamente transformados. Rivalidades geopolíticas crescem, o unilateralismo ganha força. Guerras e conflitos aprofundam a instabilidade global e elevam os preços dos alimentos e da energia”, afirmou Lula.

O presidente também criticou o protecionismo, classificado por ele como uma resposta “falaciosa” aos desequilíbrios macroeconômicos globais. Segundo Lula, a fragmentação da economia mundial impõe desafios severos ao comércio, aos investimentos e ao desenvolvimento sustentável.

Ao defender o fortalecimento do bloco, Lula disse que o Mercosul deve ser visto como instrumento estratégico em um ambiente internacional mais instável. “Na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica”, declarou.

Lula citou dados do comércio regional para sustentar a importância do bloco. Segundo ele, desde a criação do Mercosul, o comércio entre os países membros passou de US$ 4,5 bilhões, em 1991, para US$ 50 bilhões em 2025. O presidente também afirmou que, no ano passado, o intercâmbio do bloco com o restante do mundo cresceu mais de 100% em relação a 2024 e chegou a quase US$ 770 bilhões.

Na avaliação do presidente brasileiro, o Mercosul voltou a atuar com ambição no cenário internacional. Ele mencionou o acordo com a União Europeia e disse que o bloco contrariou “as expectativas de quem acreditava que o acordo com a União Europeia jamais sairia do papel”.

Lula também destacou negociações com Canadá, Índia e Vietnã, além do lançamento de tratativas para uma parceria econômica com o Japão. “Em breve, queremos fazer o mesmo com a China, e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta”, afirmou.

Apesar da ênfase na ampliação de acordos internacionais, o presidente disse que a integração regional precisa produzir efeitos concretos na vida da população. Nesse contexto, citou o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), que, segundo ele, já financiou mais de 1 mil quilômetros de rodovias, 680 quilômetros de ferrovias, 750 quilômetros de linhas de transmissão elétrica e 100 quilômetros de redes de saneamento básico.

Lula afirmou que o Brasil está pronto para apoiar o lançamento do Focem 2 e aumentar sua contribuição ao fundo com aporte de US$ 100 milhões anuais ao longo de uma década. O presidente também defendeu a incorporação da Bolívia ao mecanismo como forma de reduzir assimetrias dentro do bloco.

No campo da infraestrutura, Lula citou o programa Rotas da Integração Sul-Americana, voltado a conectar o interior do continente a portos no Pacífico, no Atlântico e no Caribe. Ele também apontou a hidrovia Paraguai-Paraná como um dos pilares da integração regional, com transporte anual de quase 100 mil toneladas de cargas.

Ao tratar dos novos desafios enfrentados pelo Mercosul, o presidente afirmou que a crise climática, a transição energética, a transformação digital, o enfrentamento ao crime organizado internacional e a promoção da saúde exigem uma coordenação regional inédita.

Lula também defendeu maior cooperação em torno de minerais críticos, considerados essenciais para a descarbonização e para a revolução digital. Segundo ele, desenvolver cadeias regionais com etapas de maior valor agregado é “uma questão de segurança nacional e soberania”.

O presidente mencionou o Mapa do Caminho para o Plano de Minerais Críticos do Mercosul, apresentado pelo Paraguai, como ponto de partida para reforçar a autonomia estratégica dos países do bloco. Ele afirmou que a região ainda precisa construir um mapeamento comum de seu potencial e diagnósticos sobre projetos que podem ser desenvolvidos conjuntamente.

Na parte final do discurso, Lula relacionou a transformação digital à defesa da soberania regional. “Agir como bloco nos fortalece frente a ameaças do colonialismo digital”, afirmou. Para o presidente, os países do Mercosul podem ser mais do que fontes de dados, matérias-primas e mercados consumidores para empresas de tecnologia.

Foi nesse contexto que Lula citou o Pix como exemplo de política pública bem-sucedida. “O Pix, sistema brasileiro público e gratuito de pagamentos, é referência internacional de inclusão financeira e eficiência digital. Sua arquitetura pode servir de base para uma estrutura de pagamentos que beneficie todos os cidadãos do Mercosul”, disse.

Segundo Lula, o compartilhamento de experiências nacionais bem-sucedidas pode fortalecer a autonomia do bloco. “A integração financeira reduzirá custos, fortalecerá o comércio intrabloco, ampliará o uso de moedas locais e aumentará nossa resiliência frente a choques externos”, afirmou o presidente. 

*Com informações do Brasil 247

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