Ceilândia em Alerta — O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), derrotado na eleição presidencial, teria contado com a ajuda de integrantes do governo dos Estados Unidos para deixar o Brasil e chegar à Flórida. Segundo reportagem do The New York Times, um funcionário da área de comunicação da administração de Donald Trump, Jason Miller, providenciou o jato particular utilizado pelo parlamentar. A viagem ocorreu em meio a uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que Flávio entregasse seus passaportes e não deixasse o país.
De acordo com o jornal norte-americano, a aeronave aguardava o senador no Aeroporto Internacional de Puerto Iguazú, na Argentina. O voo seguiu para o Equador, onde fez uma parada para reabastecimento, antes de continuar até os Estados Unidos.
A publicação afirma que Eduardo Bolsonaro procurou Jason Miller depois que o irmão recebeu a intimação judicial. A partir desse contato, teria sido organizada a viagem. A Polícia Federal investiga o trajeto utilizado pelo senador, incluindo a possibilidade de que ele tenha recorrido a uma aeronave ligada ao advogado Willer Tomaz para chegar à fronteira argentina. A investigação sobre o possível uso desse avião também envolve a apuração da PF sobre a aeronave associada a Willer Tomaz.
Carta provoca reação da Casa Branca
Horas depois de chegar à Flórida, Flávio divulgou uma carta na qual se declarou “presidente eleito do Brasil”, apesar da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. No texto, o senador acusou adversários e instituições brasileiras de terem fraudado a eleição, sem apresentar provas.
A declaração provocou irritação entre integrantes do governo Trump. Segundo informações obtidas pelo Correio Braziliense junto a um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, a administração republicana cobrou que Flávio recuasse da afirmação de que seria o verdadeiro presidente eleito.
O senador alterou posteriormente a carta e passou a se apresentar como “líder do Brasil”. A mudança ocorreu após a reação negativa de integrantes do governo norte-americano. A controvérsia também ampliou as críticas à postura do parlamentar, que deixou o país depois de perder a disputa presidencial.
A repercussão da carta provocou divergências entre aliados de Flávio. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, por exemplo, manifestou insatisfação com o documento e afirmou que não havia gostado do texto. A reação foi registrada após a saída do senador para os Estados Unidos e a repercussão entre integrantes do partido.
Trump tenta evitar desgaste político
A presença de Flávio nos Estados Unidos também passou a gerar desconforto para Donald Trump. O presidente norte-americano enfrenta críticas de opositores democratas, que questionam a concessão de autorização de entrada ao senador brasileiro, especialmente diante da política restritiva de imigração defendida pelo republicano.
A repercussão ocorre às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro. Nesse cenário, a chegada de um político estrangeiro envolvido em uma disputa eleitoral e em investigações judiciais no próprio país passou a representar um possível desgaste para a administração norte-americana.
Segundo interlocutores de Flávio ouvidos pelo Correio, o senador foi orientado a evitar grandes exposições públicas. Ele havia marcado uma entrevista coletiva para falar sobre sua intenção de liderar a oposição brasileira, mas recebeu a recomendação de adiar a conversa para depois das eleições norte-americanas.
Possível pedido de residência permanente
A reportagem do New York Times também aponta que Flávio poderá solicitar residência permanente nos Estados Unidos por meio do green card. Uma fonte do governo norte-americano afirmou ao jornal que o pedido poderia receber tramitação acelerada, em procedimento semelhante ao concedido a Eduardo Bolsonaro.
O green card permite que estrangeiros residam e trabalhem permanentemente nos Estados Unidos. Até o momento, porém, a expectativa de solicitação e a possível aceleração do processo foram relatadas por fontes ouvidas pelo jornal, não representando confirmação de que o documento tenha sido concedido.
Trump mantém críticas às eleições brasileiras
Apesar de cobrar mudanças na declaração de Flávio, Trump não abandonou as críticas ao processo eleitoral brasileiro. Questionado sobre a vitória de Lula, o presidente norte-americano voltou a classificar a eleição como uma “vergonha”, mas afirmou que pretende conversar com o petista.
O republicano já havia questionado o resultado do segundo turno e levantado suspeitas de fraude sem apresentar provas. Também criticou a prorrogação do horário de votação em algumas localidades brasileiras.
A postura evidencia uma relação ambígua da administração Trump com o caso: ao mesmo tempo em que mantém questionamentos sobre a eleição brasileira e demonstra proximidade ideológica com a família Bolsonaro, o governo norte-americano sinalizou que não pretende respaldar a autoproclamação de Flávio como presidente eleito.
A saída do senador do Brasil continua sob investigação da Polícia Federal, enquanto sua permanência nos Estados Unidos e as declarações feitas após a derrota eleitoral ampliam a repercussão política e diplomática do episódio.
Fonte: Correio Braziliense



