Reunidos no Rio após operação que deixou 121 mortos, aliados de Bolsonaro exaltam ação policial e anunciam consórcio interestadual de segurança
Dois dias após a megaoperação policial que resultou em 121 mortes no Complexo do Alemão e na Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro (PL) reuniu nesta quinta-feira (30) seis governadores de direita para oficializar a criação de um “consórcio de paz”, voltado à integração de políticas de segurança e inteligência entre os estados, segundo informa a Agenda do Poder.
O encontro, que ocorreu no Palácio Guanabara, consolidou uma aliança política entre os governadores aliados de Jair Bolsonaro, em meio à comoção nacional pela chacina e às críticas de organismos internacionais de direitos humanos.
“Faremos um consórcio no modelo de outros que já existem para dividir experiências e soluções no combate ao crime. Propus que a sede seja aqui no Rio, que é hoje o epicentro dessa luta. Temos uma grande oportunidade de mudar a história da segurança pública com integração e coragem”, declarou Castro, que classificou o episódio como um “divisor de águas” na política de segurança.
Reunião de aliados de Bolsonaro reforça discurso de endurecimento
O encontro contou com a participação de Jorginho Mello (PL-SC), Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Eduardo Riedel (PSDB-MS), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) — que participou virtualmente — e Celina Leão (PP-DF), vice-governadora do Distrito Federal.
Articulador da reunião, Jorginho Mello defendeu o que chamou de “cooperação total” entre os estados. “Vamos integrar os estados com todos os meios: contingência, inteligência, apoio financeiro e humano. Cada um vai emprestar o que tem de melhor. O crime não respeita fronteiras, e nós também não podemos agir de forma isolada”, afirmou.
Zema: “Operação mais bem-sucedida do Brasil”
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, exaltou a operação que resultou na chacina, classificando-a como “a mais bem-sucedida do Brasil”. “O que vimos foi planejamento e eficiência. Não ouvi falar de inocente morto, e sim de uma das maiores apreensões de armas e prisões da história. Isso mostra que é possível fazer segurança pública com resultado e responsabilidade”, disse Zema, em tom de defesa das forças policiais.
Já o goiano Ronaldo Caiado destacou a necessidade de atuação integrada. “A tese do consórcio é garantir resposta imediata. Nossas forças integradas poderão agir em qualquer estado sem burocracia. Quando o crime ataca um de nós, ataca todos”, afirmou.
Tarcísio e Riedel destacam tecnologia e integração
O governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, elogiou o protagonismo de Castro e defendeu o uso de tecnologia no combate às facções. “A criminalidade hoje é interestadual, usa tecnologia e poder econômico. Nós também precisamos usar inteligência, cruzamento de dados e monitoramento conjunto. Esse consórcio é o passo certo”, avaliou.
De forma virtual, Tarcísio de Freitas, que na véspera já havia defendido classificar as facções como organizações terroristas, reiterou a necessidade de uma política nacional de segurança “de Estado, não de governo”. “A violência é um problema nacional. Precisamos de cooperação real e de uma estratégia comum. A experiência de São Paulo pode somar muito, especialmente na área de monitoramento e integração de forças”, declarou.
A vice-governadora Celina Leão (PP-DF) destacou o caráter político da iniciativa: “Essa união mostra que, acima das siglas partidárias, há compromisso com o cidadão. O crime é organizado, e o Estado precisa ser mais ainda. Essa é a mensagem do consórcio.”
Bloco se forma sem articulação do governo federal
Embora o governador Castro tenha afirmado que “o inimigo é o mesmo: o crime organizado”, o movimento foi visto por analistas como uma tentativa de criar um bloco político paralelo ao governo federal na agenda de segurança pública. O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, não participou do encontro.
Na véspera, Castro e Lewandowski haviam anunciado a criação do Escritório Emergencial de Combate ao Crime Organizado, com atuação conjunta da Polícia Rodoviária Federal e reforço de inteligência. No entanto, o tom da reunião dos governadores evidenciou um distanciamento político em relação ao Planalto, com ênfase em soluções regionais e autônomas.
Contexto: chacina e repercussões
A reunião ocorreu em meio à repercussão internacional da chacina no Rio, que deixou 121 mortos, segundo balanço de moradores e autoridades locais. Organismos como o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos e a Human Rights Watch exigiram investigação rápida e criticaram o modelo de confrontos armados que “vitimizam moradores e policiais”.
Apesar das denúncias de abusos e execuções, os governadores reunidos no Rio elogiaram a operação, reforçando um discurso de endurecimento contra o crime e de defesa das forças de segurança — consolidando, assim, um bloco político e ideológico em torno da retórica da guerra ao crime, em oposição à linha de atuação do governo federal.
Com informações do Brasil 247
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