As novas revelações sobre a parceria do governo dos EUA com a Lava Jato

Uma reunião realizada entre integrantes da Força-Tarefa Lava Jato e autoridades do governo dos Estados Unidos voltou ao centro do debate público

Reportagem da Agência Pública revela que uma reunião realizada entre membros da Força-Tarefa Lava Jato e autoridades dos Estados Unidos, em janeiro de 2025, havia passado despercebida — e agora traz novos elementos que ampliam a complexidade da cooperação internacional. 

Segundo os documentos confidenciais obtidos pela Pública, o encontro ocorreu nos dias 28 e 29 de janeiro, no MPF do Rio de Janeiro, e contou com a presença de procuradores brasileiros e executivos da U.S. Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador americano de mercado de capitais. A pauta: os pormenores da divisão da verba da multa aplicada à Petrobras — incluindo “quais seriam os destinos aceitáveis” e de que forma os recursos poderiam ser utilizados no Brasil, reforçando indícios de que a criação da Fundação Lava Jato estava entre os planos discutidos com os norte-americanos. 

Os documentos faziam parte dos arquivos apreendidos no celular do procurador Deltan Dallagnol durante a Operação Spoofing, e foram analisados pelas repórteres da Pública em apuração para a audiossérie Confidencial – As digitais do FBI na Lava Jato.

Investigações ampliadas e interesses estratégicos

Durante a reunião, os americanos foram informados de que a Lava Jato investigava, além da Petrobras, funcionários de empresas com sede ou atuação nos EUA — como a petroquímica Braskem, empresas de serviços de perfuração marítima como Ensco/Pride e Vintage Drilling, e a companhia de venda de asfalto Sargeant Marine. 

Outro ponto sensível da reunião foi a apresentação da procuradora americana Laura Tessler, que expôs a “visão geral das evidências que o MPF possui em relação à Rodovia Transoceânica”, um megaproyeto de infraestrutura entre o noroeste brasileiro e o litoral sul do Peru — revelando que a atuação da Lava Jato alcançava também interesses estratégicos transnacionais.

Além disso, Tessler mencionou o caso da Refinaria de Pasadena, que envolvia a ex-presidente Dilma Rousseff — embora ela tenha sido posteriormente inocentada.

No lado brasileiro, participaram os procuradores Deltan Dallagnol, Paulo Galvão, Diogo Castor de Mattos, Roberson Henrique Pozzobon, Laura Gonçalves Tessler, e Vladimir Aras. A delegação da SEC contava com os advogados Spencer Bendell, Kara Brockmeyer, Lance Jasper, Samantha Martin, Jonathan Scott e Carlos Costa Rodrigues. 

A versão da SEC e as justificativas para a cooperação

Em entrevista para a audiossérie, o advogado Lance Jasper — então presente na reunião — tratou a ocasião como um momento de alta intensidade no Brasil:

 “Eu me lembro de que foi uma época muito interessante para estar no Brasil, uma época muito intensa” […] “Me lembro de ser um momento muito sério para estar no Brasil e tentei ser respeitoso quanto a isso”. 

Sobre a investigação da Petrobras, Jasper afirmou:

 “Quanto à investigação da Petrobras, e falando apenas do ponto de vista da SEC e do que está disponível no registro público, não foi um caso típico do FCPA. Porque não se tratava de alguém subornando um funcionário para conseguir um contrato ou acesso a algo. Era um esquema de apadrinhamento político, onde os benefícios para a Petrobras como empresa eram muito menos claros.” 

Segundo ele, o interesse estadunidense só existiu porque a Petrobras tinha vendido US$ 10 bilhões em valores mobiliários — o que colocava a estatal sob a jurisdição da SEC e tornava seus negócios de interesse para o governo dos EUA. 

A multa aplicada pela SEC e pelo Departamento de Justiça americano à Petrobras foi de US$ 853 milhões — à época, o maior acordo de leniência por corrupção internacional já firmado pelos EUA. 

Uma cooperação além de 2025: histórico de reuniões e visitas não declaradas

A reunião de janeiro de 2025 foi a terceira entre membros da Lava Jato e autoridades dos EUA documentada pelos arquivos obtidos pela Pública. A primeira teria ocorrido entre 6 e 9 de outubro de 2015 — classificada como ilegal por não ter sido comunicada nem aprovada pelo Ministério da Justiça. Essa irregularidade já havia sido denunciada em colaboração entre Pública e The Intercept Brasil.

Os documentos mostram também uma longa série de vistos concedidos a representantes do governo americano entre 2015 e 2017. Entre os visitantes havia agentes da Federal Bureau of Investigation (FBI): nomes como Michele Marie Tucker e Michael Roderick vieram ao Brasil de 14 a 18 de setembro de 2015, sob os cuidados do adido legal Steven L Moore. 

Outros agentes, como Mark Schweers e Jeff Pfeiffer, obtiveram vistos para entrar em Curitiba entre 3 e 10 de outubro de 2015. Curiosamente, os advogados da SEC — Spencer Bendell e Lance Jasper — estiveram na mesma semana no Brasil para a visita, mas não constavam na lista oficial entregue por Dallagnol à Procuradoria-Geral da República (PGR). 

Além disso, apareceram nomes como Deborah Ann Washington e Christopher Joseph Sedmak, também agentes do FBI, que estiveram no Brasil entre setembro e outubro de 2015, para prestar “assistência” ao adido Steve Moore.

Outro destaque é a agente Leslie Backshies — filha de brasileiros e, por um período, comandante do esquadrão de corrupção internacional do FBI. Ela teria visitado o Brasil mais vezes do que se imaginava: há um registro de entrada entre 14 e 18 de julho de 2017, pouco antes da assinatura do acordo da Petrobras com os EUA, em setembro do mesmo ano. Esse dado amplifica a suspeita de atuação sistemática de autoridades estrangeiras na Lava Jato. 

Também constam como visitantes, entre agosto de 2017, o procurador do Departamento de Justiça dos EUA Mark Edward Bini, e um certo Thimothy S Pack, descrito como “funcionário do FBI” que prestaria “assistência administrativa” ao adido Steve Moore, entre 10 e 27 de setembro de 2015. Há ainda menções a agentes secretos, militares e da agência antidrogas americana (DEA), embora sem vínculo formal com os casos da Lava Jato. 

Conexões anteriores e a dimensão política da operação

Para além das multas e das visitas, os documentos revelam ainda que, já em 2016, a Lava Jato apresentava justificativas de que sua origem estava ligada ao monitoramento de operadores “Hawala Dealers” — doleiros que, segundo telegramas diplomáticos da embaixada dos EUA em Assunção vazados pelo WikiLeaks, eram de interesse dos norte-americanos. Esses dados estavam em uma apresentação em PowerPoint de Dallagnol para a Universidade Harvard University, em abril de 2016.

No mesmo documento, Dallagnol acusa o Luiz Inácio Lula da Silva de integrar o que chama de “verdadeiro esquema criminoso” e detalha como o MPF coordenava a campanha das “10 Medidas Contra a Corrupção”, uma bandeira institucional da Lava Jato. 

Essa dimensão sugere que a Lava Jato ia muito além de investigações jurídicas — envolvia também estratégias de exposição política e cooperação internacional com repercussões na geopolítica e nos mercados globais, especialmente por envolver a SEC e o mercado de capitais americano.

O que muda com essas revelações

As novas evidências colocam sob nova luz a suposta independência da Lava Jato. Revelam que a cooperação com autoridades americanas nem sempre seguia os canais oficiais — com vistos concedidos fora de registros formais, reuniões não comunicadas ao Ministério da Justiça e compartilhamento de dados sensíveis com entidades estrangeiras.

Questiona-se agora até que ponto as decisões da Lava Jato foram influenciadas por interesses externos — seja de controle de mercados, seja de influência geopolítica. A existência de múltiplos encontros, o envolvimento de agentes do FBI, advogados da SEC e procuradores brasileiros, e o plano de usar a multa da Petrobras em uma fundação privada, tudo isso levanta dúvidas que vão além da esfera judicial: trata-se de soberania, transparência e limitação da cooperação internacional.

A audiossérie Confidencial – As digitais do FBI na Lava Jato, produzida pela Pública em parceria com a Audible, reúne relatos inéditos de procuradores, policiais federais, advogados e acusados. A série já está disponível para quem quiser ouvir, e dá voz a múltiplas perspectivas sobre os bastidores desta operação que marcou o Brasil nas últimas décadas. 

Fonte: brasil247

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