Cinema brasileiro debate estratégias para ampliar público e fortalecer mercado nacional

Debate no Festival de Brasília aponta que aumentar a produção não basta e defende ações voltadas à distribuição, exibição, formação de público e presença das obras nacionais no streaming.

O cinema brasileiro ampliou sua capacidade de produção nas últimas décadas, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar esse crescimento em público e participação no mercado interno. O desafio foi tema do primeiro painel da Conferência Audiovisual do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Com o tema “Não há indústria sem audiência: como fortalecer o mercado interno do audiovisual brasileiro”, o encontro reuniu cineastas e produtores para discutir caminhos que permitam às obras nacionais chegar efetivamente aos espectadores.

Entre os participantes estavam os cineastas Tatá Amaral e Rodrigo Siqueira e o produtor Nilson Rodrigues. Apesar das diferentes abordagens, um ponto apareceu de forma recorrente: políticas concentradas apenas no financiamento da produção não seriam suficientes para consolidar uma indústria audiovisual nacional.

A discussão passa pela necessidade de integrar produção, distribuição e exibição, além de ampliar a divulgação dos filmes, investir na formação de público e discutir a presença das produções brasileiras nas plataformas de streaming e na televisão.

Produzir filmes não garante público

O produtor Nilson Rodrigues chamou atenção para a distância existente entre o número de obras realizadas e sua capacidade de alcançar espectadores. Segundo ele, não basta produzir centenas de filmes por ano se essas produções encontram dificuldades para chegar às salas e conquistar audiência.

Rodrigues citou uma participação de aproximadamente 3,1% do cinema brasileiro no mercado, apesar do crescimento geral do público das salas de exibição. O dado foi apresentado durante o painel como exemplo da dificuldade enfrentada pelas produções nacionais.

Na avaliação do produtor, a cota de tela é um instrumento importante para garantir espaço aos filmes brasileiros, mas precisa estar acompanhada de investimentos em distribuição, promoção e divulgação.

Isso ocorre porque colocar uma obra em cartaz não significa necessariamente que o público saiba de sua existência. Grandes produções estrangeiras normalmente chegam ao mercado acompanhadas por campanhas publicitárias de grande alcance, enquanto muitos filmes brasileiros possuem recursos limitados para divulgação.

Outro desafio é a formação de novos espectadores. Os participantes defenderam maior aproximação entre crianças, jovens e a produção audiovisual brasileira, permitindo que o contato com filmes nacionais faça parte da formação cultural desde cedo.

O debate também recuperou aspectos históricos do mercado. Rodrigo Siqueira afirmou que a forte presença das produções norte-americanas nas salas brasileiras existe há cerca de um século e destacou períodos nos quais políticas públicas ampliaram o espaço reservado ao conteúdo nacional.

Entre os exemplos citados estão a criação das primeiras cotas de tela, a atuação da Embrafilme e políticas posteriores de financiamento da produção audiovisual.

Para Siqueira, o desafio atual é construir uma política capaz de fortalecer não apenas a realização dos filmes, mas toda a estrutura econômica necessária para que produtoras brasileiras possam competir e manter no país parte maior dos direitos e das receitas geradas pelas obras.

Streaming entra no centro do debate

A expansão das plataformas digitais acrescentou uma nova dimensão à discussão. Serviços de streaming aumentaram significativamente a demanda por produções realizadas no Brasil e passaram a contratar profissionais, produtoras, atores, roteiristas e técnicos brasileiros.

Os participantes do painel, porém, defenderam que a presença de trabalhadores nacionais nessas produções não significa automaticamente o fortalecimento de uma indústria brasileira independente.

Rodrigo Siqueira argumentou que é necessário observar também quem controla os direitos econômicos das obras e onde permanece a riqueza produzida pela atividade audiovisual.

Nilson Rodrigues defendeu a regulamentação das plataformas como uma maneira de ampliar a presença de obras nacionais nos catálogos e gerar novas fontes de financiamento para o setor. Uma das propostas discutidas é direcionar recursos provenientes da atividade das plataformas ao Fundo Setorial do Audiovisual.

A televisão aberta também entrou na discussão. Para os participantes, políticas destinadas ao cinema nacional precisam considerar as diferentes formas pelas quais o público atualmente consome conteúdo, incluindo salas comerciais, televisão e serviços digitais.

Tatá Amaral defendeu ainda a criação de grupos de trabalho capazes de reunir dados sobre a presença e a audiência do conteúdo brasileiro. Segundo a cineasta, ainda faltam informações detalhadas sobre quanto conteúdo audiovisual nacional circula na televisão e, principalmente, nas plataformas de streaming.

A proposta seria utilizar esses dados para estabelecer metas e estratégias de crescimento da audiência brasileira nos próximos anos.

O debate também abordou o conceito de soberania cultural. Tatá Amaral e Rodrigo Siqueira avaliaram que a predominância histórica das produções estrangeiras cria uma relação de dependência que precisa ser enfrentada por uma política de longo prazo para o audiovisual.

Siqueira citou a Coreia do Sul como exemplo de país que estruturou políticas para desenvolver sua indústria cultural e posteriormente ampliar a presença de seus produtos no mercado internacional.

No caso brasileiro, os participantes defenderam uma estratégia que articule financiamento, distribuição, exibição, formação de público, televisão e streaming.

O diagnóstico apresentado no Festival de Brasília indica, portanto, que o desafio atual do cinema nacional não está apenas em produzir mais, mas principalmente em fazer com que os filmes brasileiros sejam encontrados, divulgados e assistidos dentro do próprio país.


🔍 Fonte: Brasil de Fato.

📰 Edição: Ceilândia em Alerta | Jornal Taguacei

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