Ceilândia em Alerta — A escola pode desempenhar um papel importante na identificação de mudanças emocionais em crianças e adolescentes. Alterações no comportamento, queda no rendimento, isolamento e irritabilidade podem indicar que o estudante está passando por algum tipo de sofrimento e exigem atenção de professores, orientadores e demais profissionais da comunidade escolar.
Mais do que observar um comportamento isolado, a equipe pedagógica deve perceber mudanças significativas em relação ao padrão habitual do aluno. A forma como essas manifestações aparecem também pode variar de acordo com a idade e a fase de desenvolvimento.
Segundo a psicóloga Flávia Marsola Cembranel, crianças podem demonstrar sofrimento emocional principalmente por meio de alterações comportamentais e queixas físicas. Irritabilidade, choro, recusa em ir à escola, dores de cabeça e dores de barriga estão entre os sinais que podem chamar a atenção dos adultos.
Entre os adolescentes, por outro lado, podem aparecer isolamento social, mudanças no sono, perda de interesse pelas atividades e alterações no comportamento. A especialista ressalta que nem sempre um jovem em sofrimento emocional demonstra tristeza de maneira evidente, podendo apresentar apatia ou irritabilidade.
A atenção ao comportamento dos estudantes também é importante porque questões emocionais podem interferir diretamente na aprendizagem. Atenção, memória de trabalho e capacidade de planejamento podem ser prejudicadas quando o aluno está submetido a situações de estresse intenso ou persistente.
A psicopedagoga Elaine Cristina, especialista em Neurociência Cognitiva e Neuropsicopedagogia, explica que dificuldades repentinas para acompanhar instruções ou recuperar conteúdos já aprendidos devem ser observadas com cuidado.
Antes de interpretar uma queda no desempenho como falta de interesse ou dedicação, a orientação é verificar se houve alguma mudança significativa na rotina, no comportamento ou na maneira como o aluno se relaciona com colegas e professores.
Professor deve observar, mas não diagnosticar
Um dos desafios para as escolas é estabelecer os limites entre o acompanhamento pedagógico e o atendimento clínico. Professores não devem assumir o papel de terapeutas ou tentar estabelecer diagnósticos.
A recomendação das especialistas é que os profissionais registrem comportamentos concretos em vez de utilizar rótulos. Em vez de afirmar que determinado aluno está deprimido, por exemplo, a equipe pode registrar que ele passou a se isolar durante o intervalo ou apresentou uma queda significativa no rendimento ao longo de algumas semanas.
A comunidade escolar também pode adotar uma postura de escuta. Uma abordagem simples, demonstrando disponibilidade para conversar, pode ajudar o estudante a se sentir acolhido e facilitar a identificação de situações que estejam afetando seu bem-estar.
Em situações que envolvam suspeita de violência, autoagressão ou pensamentos suicidas, a escola deve seguir os protocolos de proteção e acionar a equipe responsável, os familiares e os serviços adequados.
Mudanças na rotina podem ajudar
A escola também pode fazer adaptações para oferecer maior previsibilidade ao aluno que esteja enfrentando dificuldades emocionais. Entre as medidas estão dividir atividades extensas em etapas menores, apresentar instruções de maneira clara e evitar situações de exposição pública desnecessária.
Essas mudanças não significam retirar do estudante os desafios necessários para sua aprendizagem. O objetivo é criar condições para que ele consiga retomar gradualmente a organização e a segurança necessárias para participar das atividades.
O diálogo com a família também deve fazer parte desse processo. Em vez de apresentar conclusões antecipadas, a escola pode compartilhar as mudanças observadas e convidar os responsáveis a participar da busca por possíveis causas e encaminhamentos.
No Distrito Federal, crianças e adolescentes que enfrentam sofrimento emocional também contam com serviços especializados da rede pública de saúde mental. O atendimento varia de acordo com a idade e a intensidade da situação, incluindo unidades básicas de saúde, serviços especializados para crianças e adolescentes e os Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenis (Capsi).
A identificação precoce não significa estabelecer um diagnóstico dentro da escola. O papel da instituição é perceber mudanças, acolher o aluno, comunicar a família e encaminhar a situação aos profissionais e serviços responsáveis quando necessário.
Fonte: Metrópoles



