Ceilândia em Alerta — O avanço das mudanças climáticas deve tornar os episódios de calor extremo mais frequentes e intensos nas próximas décadas. Projeções para 2050 indicam que diversas cidades poderão enfrentar períodos prolongados de temperaturas capazes de representar riscos à saúde da população, além de impactos sobre a economia e a infraestrutura urbana. Em Manaus, por exemplo, um estudo projeta até 258 dias de calor extremo por ano.
O levantamento que chegou à estimativa para Manaus foi elaborado pela CarbonPlan em parceria com o The Washington Post. A análise considera um índice de estresse térmico que leva em conta fatores como temperatura, umidade, vento e radiação solar. Na projeção, a capital amazonense aparece entre as cidades brasileiras mais expostas ao calor extremo em 2050.
Além de Manaus, outras capitais brasileiras aparecem entre as cidades que poderão enfrentar grande quantidade de dias de calor extremo. Belém tem projeção de 222 dias, seguida por Porto Velho, com 218, Rio Branco, com 212, Boa Vista, com 190, e Macapá, com 185 dias.
O cenário também chama atenção para os efeitos das mudanças climáticas sobre diferentes regiões do país. O aumento da temperatura média não ocorre isoladamente: ele pode contribuir para a intensificação de eventos extremos e ampliar os desafios enfrentados pelas cidades.
Riscos para a saúde
A exposição prolongada a temperaturas muito elevadas pode provocar desidratação, exaustão térmica e insolação. Idosos, crianças e pessoas com determinadas condições de saúde estão entre os grupos que podem apresentar maior vulnerabilidade.
A combinação entre calor e umidade elevada também merece atenção. Em regiões tropicais, a dificuldade de o corpo eliminar calor por meio da transpiração pode aumentar o risco de estresse térmico. Por isso, episódios de calor extremo podem pressionar os serviços de saúde e elevar a demanda por atendimentos médicos.
No Distrito Federal, os períodos de calor e baixa umidade já provocam impactos perceptíveis. Em agosto, Brasília registrou uma sequência de temperaturas elevadas, com a estação de Ponte Alta, no Gama, chegando a 34,3°C e umidade de apenas 13%.
Poucas semanas depois, o DF voltou a registrar temperaturas elevadas, com 35,1°C na estação meteorológica de Ponte Alta, no Gama. A combinação de calor e baixa umidade levou as autoridades a reforçarem as recomendações de hidratação e redução da exposição ao sol.
Impactos sobre economia e infraestrutura
Os efeitos do calor intenso também ultrapassam a área da saúde. Atividades realizadas ao ar livre, como agricultura e construção civil, podem sofrer redução de produtividade quando os trabalhadores ficam expostos a temperaturas elevadas durante longos períodos.
O aumento da temperatura também tende a elevar a utilização de equipamentos de refrigeração e, consequentemente, a demanda por energia elétrica. Famílias, empresas e serviços públicos podem enfrentar custos maiores para manter ambientes em condições adequadas durante os períodos mais quentes.
Outro impacto está relacionado à infraestrutura urbana. As cidades precisam se preparar para condições climáticas mais severas, incluindo investimentos em arborização, áreas verdes, sistemas de drenagem e planejamento urbano.
Ilhas de calor agravam o problema
Nas áreas urbanas, o calor pode ser intensificado pelo fenômeno conhecido como ilha de calor. Concreto, asfalto e outras superfícies construídas absorvem radiação durante o dia e liberam parte desse calor posteriormente, dificultando a redução das temperaturas durante a noite.
Um estudo sobre a expansão urbana no Distrito Federal mostrou que a redução das áreas verdes e o avanço de regiões construídas contribuem para o aumento das temperaturas e para a redução da umidade em diferentes pontos da capital.
Segundo especialistas ouvidos pelo TaguaCei na ocasião, regiões como Ceilândia, Samambaia e Águas Claras podem sofrer de maneira mais intensa os efeitos das ilhas de calor devido à concentração de edifícios, pavimentos e materiais que retêm energia térmica.
Adaptação das cidades
Entre as estratégias para reduzir os efeitos do calor estão a ampliação da arborização, a criação e preservação de parques e áreas verdes, a utilização de telhados verdes e materiais capazes de refletir mais radiação solar.
O planejamento urbano também pode contribuir para melhorar a circulação de ar e reduzir a concentração de calor. Em Manaus, por exemplo, estudos e iniciativas recentes analisam formas de adaptar o ambiente construído às temperaturas elevadas e melhorar as condições de conforto térmico da população.
As projeções para 2050 não representam uma previsão precisa para cada dia daquele ano, mas cenários baseados em modelos climáticos e diferentes condições futuras. Ainda assim, os estudos indicam uma tendência de aumento dos riscos associados ao calor e reforçam a necessidade de medidas de adaptação nas cidades.
Fonte: Correio Braziliense



