APA da Baleia Franca completa 26 anos sob risco de redução de área protegida

Projeto de lei em tramitação no Congresso prevê retirar 34 mil hectares da unidade de conservação no litoral de Santa Catarina, despertando preocupação entre ambientalistas e órgãos de proteção ambiental.

A Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca completa 26 anos em setembro, mas chega ao aniversário sob ameaça de redução de sua área protegida. Criada em 2000 para preservar a espécie e os ecossistemas associados à sua reprodução, a unidade abrange cerca de 155 mil hectares do litoral de Santa Catarina, entre o sul de Florianópolis e Balneário Rincão, passando por 10 municípios.

O risco está relacionado ao Projeto de Lei (PL) nº 849/2025, de autoria da deputada federal Geovânia de Sá (Republicanos-SC). A proposta pretende retirar da APA toda a faixa costeira terrestre, correspondente a aproximadamente 34 mil hectares.

A justificativa apresentada para o projeto é garantir segurança jurídica às famílias residentes na região e facilitar processos de regularização fundiária. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), porém, afirma que a existência da APA não impede a presença de moradores, atividades econômicas ou processos de regularização, desde que sejam respeitadas as normas ambientais e o planejamento territorial.

A proposta tramita em regime de urgência e já passou a ser analisada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados. Depois dessa etapa, deverá seguir para votação no plenário.

Redução pode afetar ecossistemas costeiros

Especialistas e órgãos ambientais alertam que a retirada da faixa terrestre pode aumentar a pressão sobre ambientes como dunas, restingas, manguezais, lagoas costeiras e áreas de Mata Atlântica.

Para o arquiteto e urbanista Miguel von Behr, que atuou como analista ambiental na APA pelo ICMBio, a redução da unidade pode comprometer a qualidade ambiental de todo o território e afetar também comunidades tradicionais que dependem dos recursos naturais.

O ICMBio também considera a proposta preocupante. Segundo o instituto, a APA protege um sistema integrado formado por ambientes marinhos e terrestres, cuja conservação é necessária para garantir as condições adequadas ao ciclo de reprodução da baleia-franca.

A unidade é uma Área de Proteção Ambiental de uso sustentável. Dessa forma, sua existência é compatível com moradias, atividades econômicas e regularização fundiária, desde que essas ações estejam de acordo com as regras ambientais.

A retirada da proteção federal não significaria o fim de todas as regras ambientais existentes, já que outros instrumentos, como as Áreas de Preservação Permanente (APPs), continuariam valendo. Entretanto, segundo o ICMBio, a mudança reduziria um importante mecanismo de gestão integrada da zona costeira e poderia aumentar a vulnerabilidade dos ecossistemas diante da urbanização e da especulação imobiliária.

Proteção da baleia-franca depende do território costeiro

A APA foi criada após décadas de preocupação com a sobrevivência da baleia-franca, espécie que sofreu intensa perseguição no litoral brasileiro. A caça na região de Imbituba, em Santa Catarina, terminou em 1973.

A partir da década de 1980, a espécie voltou a ser registrada no litoral catarinense. A região passou então a ser reconhecida como importante área de reprodução e criação de filhotes.

Durante o inverno do hemisfério Sul, as baleias-francas migram para águas costeiras de Santa Catarina, onde as fêmeas dão à luz e permanecem com os filhotes antes de retornar às áreas de alimentação próximas à Antártica.

A conservação da espécie depende não apenas do ambiente marinho, mas também da preservação dos ecossistemas terrestres associados à costa. Dunas, restingas, lagoas e áreas úmidas contribuem para a estabilidade da faixa costeira, a qualidade da água e a manutenção de diferentes espécies.

A APA também abriga comunidades tradicionais e atividades econômicas, incluindo a pesca artesanal. Para pesquisadores e órgãos ambientais, a manutenção da proteção integrada é fundamental para conciliar conservação ambiental, atividades humanas e desenvolvimento sustentável.

Criada a partir de articulações entre órgãos públicos, pesquisadores, organizações ambientais, comunidades e representantes do setor privado, a APA da Baleia Franca tornou-se uma das principais áreas de conservação do litoral catarinense.

A discussão sobre o projeto de lei coloca em debate, portanto, não apenas os limites de uma unidade de conservação, mas o modelo de ocupação e desenvolvimento da costa brasileira diante do avanço da urbanização e dos impactos das mudanças climáticas.


🔍 Fontes: Brasil de Fato

📰 Edição: Ceilândia em Alerta | Jornal Taguacei

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