Levantamento da FGV EAESP em parceria com a CNTE ouviu 2.235 profissionais e identificou receio de consequências políticas e redução da autonomia no ambiente escolar.
Ceilândia em Alerta – Uma pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP) em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) aponta que parte dos profissionais da educação participantes do levantamento convive com medo de retaliações, autocensura e pressão política no ambiente escolar. O estudo ouviu 2.235 profissionais da educação de todas as unidades da Federação entre 23 de junho e 20 de agosto deste ano.
A nota técnica, intitulada Politização no cotidiano das escolas: um olhar para a prática docente, mostra que 75% dos participantes afirmaram ter medo de sofrer consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos.
Outros 61% disseram que pressões políticas limitam sua autonomia para trabalhar da maneira que consideram adequada, enquanto 71,7% avaliam que seu trabalho está atualmente mais exposto a críticas políticas. Para 66,8%, até mesmo decisões rotineiras podem ser interpretadas como posicionamentos políticos.
Os próprios pesquisadores ressaltam uma limitação importante: a amostra foi voluntária e não probabilística. Portanto, os percentuais encontrados não podem ser generalizados estatisticamente para todos os professores ou profissionais da educação pública brasileira.
Professores relatam mudanças na maneira de ensinar
A reportagem apresenta relatos de docentes que afirmam ter modificado a forma de abordar determinados assuntos em sala de aula.
A professora de História Cibele Lima, que trabalha há 15 anos na rede municipal de São Paulo, conta que anteriormente promovia discussões sobre racismo, violência policial, homofobia e feminismo. Depois de acompanhar episódios de exposição de professores nas redes sociais, passou a limitar algumas atividades por receio de enfrentar situação semelhante.
Segundo a professora, a preocupação também influencia a maneira como responde às perguntas dos estudantes. Temas relacionados a gênero e sexualidade, por exemplo, passaram a ser tratados com maior cautela.
Gabriela Lotta, professora da FGV EAESP e coordenadora da equipe responsável pelo estudo, afirma que os relatos indicam que as preocupações não estão restritas aos assuntos tradicionalmente envolvidos em disputas políticas.
Professores de Biologia relataram receio de abordar conteúdos sobre o aparelho reprodutivo, enquanto temas como vacinação, democracia e determinados períodos da história brasileira também aparecem entre os assuntos que podem gerar insegurança.
A nota técnica contextualiza esses relatos em um período de intensificação das disputas públicas em torno de gênero, sexualidade, religião, questões étnico-raciais e conteúdos políticos. O documento também menciona iniciativas como o Escola Sem Partido e acusações de doutrinação dirigidas a professores.
A associação entre esse ambiente político e a autocensura é uma interpretação apresentada pelos pesquisadores e entrevistados. O levantamento não permite concluir que todos os docentes brasileiros estejam submetidos às mesmas circunstâncias.
Outro elemento relatado é o uso de celulares para gravar professores durante as aulas. Educadores entrevistados afirmam temer que trechos sejam retirados de contexto e posteriormente divulgados nas redes sociais.
Pressão também aparece na relação com famílias e gestores
A pesquisa mostra que 44% dos participantes disseram já ter enfrentado conflitos com famílias de alunos por causa do trabalho. Apesar disso, 69,7% consideram positiva a relação que mantêm com os responsáveis pelos estudantes.
Professores ouvidos pela reportagem também relatam orientações de gestores para evitar determinados posicionamentos ou controlar a maneira de abordar assuntos políticos.
Uma professora de Geografia de uma escola particular, identificada por nome fictício, afirmou ter sido orientada pela coordenação a tomar cuidado com discussões políticas devido à possibilidade de reclamações das famílias. Segundo ela, a consequência foi reduzir a profundidade de algumas discussões realizadas em sala.
O levantamento aponta ainda que 64,5% dos participantes sentem ter pouco espaço para interpretar regras, enquanto 63,2% dizem desenvolver soluções próprias quando as normas dificultam a realização do trabalho.
A pressão aparece acompanhada, em alguns depoimentos, por relatos de exaustão, ansiedade, medo e intenção de abandonar a profissão. Os pesquisadores fazem, porém, outra ressalva importante: o estudo atual não mede se houve crescimento dos problemas de saúde mental entre professores.
Mesmo diante das dificuldades relatadas, os dados mostram elevada identificação dos participantes com a função social da educação. Para 96,3%, contribuir para o bem-estar da sociedade é importante, enquanto 96% enxergam seu trabalho como uma forma de servir à sociedade.
Além disso, 88,6% avaliam positivamente a relação com os estudantes, 85,1% acreditam que os alunos confiam nos professores e 75,2% afirmam sentir orgulho de trabalhar na escola.
Para os pesquisadores, o principal ponto de atenção ocorre quando o receio de reclamações, denúncias ou exposição pública passa a interferir na abordagem de conteúdos previstos no currículo.
A nota técnica procura, dessa forma, identificar como disputas políticas e sociais são percebidas pelos profissionais que participaram da pesquisa e como essas pressões podem chegar ao cotidiano das salas de aula. Por se tratar de uma amostra voluntária, seus resultados descrevem as experiências dos participantes e devem ser interpretados dentro dessa limitação metodológica.
🔍 Fonte: Brasil de Fato.



