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Lula cobra ONU por omissão em conflitos e atribui desgaste ambiental do Brasil ao governo Bolsonaro na COP-15

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez, neste domingo (22), um discurso de forte conteúdo político e ambiental na COP-15, conferência das Nações Unidas voltada à proteção das espécies migratórias, realizada em Campo Grande (MS). Segundo informou o Valor Econômico, Lula criticou a omissão do Conselho de Segurança da ONU diante de conflitos internacionais, condenou o enfraquecimento do multilateralismo e voltou a atribuir ao governo de Jair Bolsonaro o desgaste da imagem externa do Brasil na área ambiental.

Ao falar no segmento presidencial da conferência, Lula associou o cenário global atual ao avanço de ações arbitrárias e à deterioração das instituições multilaterais. Sem citar nominalmente Estados Unidos, Israel ou Irã, o presidente fez referência indireta às guerras e crises em curso e alertou para o aumento da instabilidade internacional.

“Esta COP-15 ocorre em um momento de grandes tensões geopolíticas. Ações unilaterais, atentados à soberania e execuções sumárias estão se tornando a regra”, afirmou.

Na mesma linha, Lula ressaltou a importância histórica das Nações Unidas, mas indicou que o sistema internacional vive um momento de esgotamento, especialmente no campo da prevenção e mediação de conflitos. Segundo ele, embora a ONU tenha desempenhado papel relevante ao longo de oito décadas em temas como a proibição de armas químicas e biológicas, a afirmação dos direitos humanos e o amparo a refugiados e imigrantes, o órgão máximo de segurança tem falhado em sua principal missão.

“O Conselho de Segurança tem sido omisso na busca por soluções de conflitos”, declarou.

O presidente advertiu ainda para os riscos de um cenário internacional sem normas comuns e sem instituições capazes de conter escaladas militares e humanitárias. “Um mundo sem regras é um mundo inseguro, onde qualquer um pode ser a próxima vítima”, disse. Em seguida, contrapôs a lógica do fechamento de fronteiras e da intolerância à necessidade de cooperação internacional. “No lugar de muros e discursos de ódio”, defendeu, são necessárias “políticas de acolhimento e de um multilateralismo forte e renovado”.

A fala ocorreu em um contexto de crescente tensão internacional e também de antecipação da disputa política brasileira. Antes de Lula, discursaram o presidente do Paraguai, Santiago Peña, com quem o brasileiro teve reunião bilateral, e o chanceler da Bolívia, Fernando Carrasco. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, também participou do evento, assim como os ministros Alexandre Silveira, de Minas e Energia, e Simone Tebet, do Planejamento.

No plano interno, Lula aproveitou a tribuna da COP-15 para reforçar uma comparação entre a política ambiental de seu governo e a gestão anterior. Sem mencionar Jair Bolsonaro diretamente na fala citada, o presidente atribuiu ao período anterior um abalo profundo na credibilidade internacional do país.

“Até pouco tempo, a imagem internacional do Brasil na área ambiental enfrentava questionamentos profundos, impactando diretamente nossas relações econômicas e comerciais”, afirmou.

Lula sustentou que, desde 2023, seu governo promoveu uma inflexão na condução da política ambiental, com resultados concretos no combate à devastação dos biomas. Segundo ele, houve redução do desmatamento na Amazônia pela metade, queda superior a 30% no Cerrado e diminuição de mais de 90% das queimadas no Pantanal.

Ao apresentar esse balanço, o presidente buscou consolidar a narrativa de reconstrução da agenda ambiental brasileira, agora articulada a uma estratégia diplomática mais ampla. Ele lembrou que o país foi sede da COP-30, lançou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Coalizão de Mercados de Carbono. Também recebeu aplausos ao citar a candidatura da região de Abrolhos ao título de Patrimônio Mundial da Unesco.

Lula situou a própria COP-15 dentro de uma trajetória mais longa da governança ambiental internacional. Recordou que a convenção para a proteção das espécies migratórias foi criada em 1979, antes mesmo da Conferência do Rio de Janeiro de 1992, e afirmou que ela foi pioneira na construção da arquitetura institucional de meio ambiente e clima no âmbito das Nações Unidas.

Segundo o presidente, a convenção permitiu o controle e o mapeamento de quase 1.200 animais classificados entre espécies ameaçadas e em extinção. “Contribuiu para a recuperação da baleia jubarte, da tartaruga-verde, que estavam prestes a desaparecer”, disse.

Ao assumir a presidência brasileira da COP-15, Lula apontou três objetivos centrais para a atuação do país. O primeiro é aproximar a agenda da conferência dos princípios já consagrados nas convenções do clima, da desertificação e da biodiversidade. O segundo é ampliar e mobilizar recursos financeiros, com a criação de fundos e mecanismos multilaterais inovadores. O terceiro é universalizar a Declaração do Pantanal, de modo a atrair mais países para a proteção das espécies e das rotas migratórias.

O governo brasileiro também aproveitou o encontro para anunciar novas medidas de preservação ambiental. Entre elas está a criação da reserva Córregos dos Vales do Norte de Minas Gerais, com área de 41 mil hectares. Também foram anunciadas a ampliação do Parque Nacional do Pantanal em mais 47 mil hectares, elevando a área total protegida para 183 mil hectares, e a expansão da Estação Ecológica de Taiamã, em Mato Grosso, que passará a contar com 68 mil hectares.

A dimensão regional da conferência também foi destacada. Há quase duas décadas, Brasil, Paraguai, Bolívia, Argentina e Uruguai mantêm um memorando para a preservação de aves migratórias, protegendo 11 espécies. A iniciativa foi citada como exemplo de cooperação sul-americana na preservação ambiental e na defesa de rotas ecológicas compartilhadas.

Na parte final do discurso, Lula voltou-se para compromissos multilaterais ainda pendentes e manifestou expectativa de que o Senado brasileiro aprove o Acordo de Escazú, tratado voltado à democracia ambiental, à justiça social e à proteção de defensores do meio ambiente na América Latina e no Caribe.

O presidente também declarou esperar que as discussões da COP-15 contribuam para dois objetivos estratégicos na pauta ambiental internacional: a criação de um santuário de baleias no Atlântico Sul e o avanço da Área Marinha Protegida na Antártica.

Com isso, Lula procurou vincular a agenda ambiental brasileira não apenas à preservação interna dos biomas, mas também a uma visão geopolítica mais ampla, na qual a defesa da natureza, a cooperação entre países e o fortalecimento das instituições multilaterais aparecem como partes inseparáveis de um mesmo projeto. Na conferência de Campo Grande, o presidente apresentou o Brasil como um ator que busca recuperar protagonismo internacional justamente por meio da combinação entre soberania, proteção ambiental e diplomacia ativa.

Com informações do Brasil247

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