Ceilândia em Alerta — Mulheres produtoras rurais do Distrito Federal e do Entorno estão se organizando para fortalecer a geração de renda, a autonomia e o trabalho coletivo no campo. A iniciativa é desenvolvida por meio da Cooperativa Feminista para a Sustentação da Vida (Coofesus), criada a partir de uma parceria entre o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
A proposta busca ampliar as oportunidades de trabalho e renda para mulheres que vivem em assentamentos e acampamentos, além de incentivar práticas sustentáveis, agroecológicas e de cuidado coletivo.
Moradora do Acampamento 8 de Março, em Planaltina, Bárbara Pereira, de 57 anos, coordena a Coofesus na comunidade. Para ela, a iniciativa representa uma oportunidade de conquistar independência financeira e fortalecer a atuação coletiva das produtoras.
“O projeto vai permitir que tenhamos meios de trabalho e independência pessoal e financeira. É um movimento que valoriza a coletividade”, afirma Bárbara.
Segundo Guacira Cesar de Oliveira, socióloga e coordenadora do Cfemea, a organização das trabalhadoras rurais procura criar alternativas de geração de renda para mulheres que enfrentam os efeitos da divisão sexual do trabalho.
A proposta também considera a necessidade de conciliar trabalho, família e autocuidado. Muitas participantes são mães solo ou têm responsabilidades relacionadas ao cuidado de filhos, netos e pessoas idosas, o que dificulta a atuação em empregos fora das comunidades.
Atualmente, a cooperativa está em fase de estruturação, com a elaboração de um estatuto. Cerca de 60 mulheres participam da iniciativa, distribuídas entre um assentamento e quatro acampamentos localizados em Brazlândia, Planaltina e Água Fria de Goiás (GO).
Produção e formação
Bárbara trabalha com a produção de conservas de legumes, temperos e plantas ornamentais. Ela também destaca a importância da educação para o fortalecimento das comunidades rurais.
De acordo com a produtora, integrantes da cooperativa são incentivadas a retomar os estudos. Ela própria cursa a Educação de Jovens e Adultos (EJA), enquanto outras participantes possuem formação em áreas como enfermagem, educação, direito e agronomia.
A comunidade do Acampamento 8 de Março também deve inaugurar a primeira casa de farinha coordenada por uma cooperativa de mulheres no Distrito Federal. A estrutura deverá atender ao consumo da própria comunidade e também contribuir para a geração de renda.
A ideia é estabelecer uma dinâmica de trabalho que permita às participantes dividir responsabilidades e auxiliar umas às outras quando houver dificuldades para cumprir determinadas atividades.
Feminismo e agroecologia
A organização em cooperativas também pode facilitar o acesso a políticas públicas e linhas de crédito voltadas à agricultura familiar. A avaliação é da professora da Universidade de Brasília (UnB) Flaviane de Carvalho Canavesi, especialista em agroecologia e desenvolvimento rural sustentável.
Segundo ela, a organização das mulheres tem relevância econômica e social e pode contribuir para enfrentar desigualdades históricas no meio rural.
A professora também destaca a relação entre feminismo e agroecologia. Para ela, a divisão mais justa das responsabilidades e a igualdade de gênero são temas importantes para o fortalecimento do movimento agroecológico.
Mônica Barbosa, de 43 anos, vive há 16 anos no Assentamento Oscar Niemeyer, em Brazlândia. A trabalhadora mantém uma criação de animais e um sistema agroflorestal voltado à produção de alimentos.
Para Mônica, as mulheres que vivem no campo enfrentam dificuldades relacionadas à dupla ou tripla jornada de trabalho, ao acesso à propriedade da terra e ao crédito agrícola, além da invisibilidade de suas atividades produtivas e do isolamento geográfico.
Dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (PDAD-A) de 2024 apontam que a população rural do Distrito Federal é de aproximadamente 122 mil pessoas. Desse total, 48,1% são mulheres.
Modelo de produção
Para as integrantes da Coofesus, o modelo cooperativo também representa uma forma de fortalecer a autonomia econômica e a participação das mulheres nas decisões sobre a própria produção.
A professora Flaviane de Carvalho afirma que o conceito tradicional de competitividade, baseado principalmente em rentabilidade financeira, passa por uma revisão diante de desafios como as mudanças climáticas e a insegurança alimentar.
Na avaliação da especialista, cooperativas femininas voltadas à agroecologia podem apresentar maior capacidade de adaptação e contribuir para a produção de alimentos saudáveis, além de aproximar produtores rurais e consumidores urbanos.
Entre as possibilidades de comercialização estão as feiras comunitárias, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), as Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSAs) e plataformas digitais.
Para ingressar na Coofesus, as participantes passam por uma formação de aproximadamente 70 dias. O processo aborda temas relacionados à gestão coletiva, elaboração de planos de trabalho e divisão de responsabilidades.
Também é desenvolvido um projeto econômico que define os produtos que serão comercializados, as estratégias de venda e os recursos necessários para o funcionamento da iniciativa.
Mônica Barbosa espera que a cooperativa contribua para ampliar a autonomia das mulheres e fortalecer práticas de cuidado coletivo.
“Seguimos organizadas, pois juntas seremos mais fortes”, afirma.
Fonte: Correio Braziliense.
Nota de transparência: Esta reportagem foi produzida com o auxílio de inteligência artificial para organização e aprimoramento do texto, passando por revisão, checagem e edição humana antes de sua publicação.



