O Brasil voltou a registrar massacres no campo em 2025, depois de dois anos sem ocorrências desse tipo. Ao todo, 26 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo, segundo o relatório “Conflitos no Campo Brasil 2025”, da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
O número representa alta de 100% em relação a 2024, quando foram registrados 13 assassinatos, o menor índice dos últimos dez anos. Apesar da alta, o total de 2025 ficou abaixo da média da década, de 37 mortes por ano.
A alta ocorreu em um cenário contraditório. O total de conflitos no campo caiu de 2.207, em 2024, para 1.593 em 2025, uma redução de 27%. O número de pessoas impactadas pelos conflitos também recuou, de 1.183.909 para 855.126 no mesmo período. Ainda assim, os assassinatos dobraram.
Segundo a análise publicada no relatório, os dois massacres registrados no ano ajudam a explicar parte desse aumento. Um deles ocorreu no Pará e teve como vítimas trabalhadores sem-terra. O outro foi registrado em Rondônia, onde morreram um posseiro e dois aliados. Em cada caso, três pessoas foram assassinadas. A CPT considera massacre a morte simultânea de três ou mais pessoas, na mesma data e localidade, em uma mesma ocorrência de conflito pela terra.
Para o coordenador nacional da CPT, Carlos Lima, a retomada dos massacres tem uma dimensão conjuntural, mas ocorre em territórios historicamente marcados pela violência agrária.
“A ocorrência do massacre pode estar ligada a uma questão conjuntural, mas ela acontece em dois estados em que historicamente esse território permanece como território de disputa: o Pará, que tem um número elevadíssimo de assassinatos no campo, e Rondônia”, afirma em entrevista ao Brasil de Fato.
Os dados da década ajudam a dimensionar essa concentração. Entre 2016 e 2025, Pará e Rondônia foram os estados com mais assassinatos no campo: 82 mortes no Pará e 79 em Rondônia. Juntos, os dois estados também concentraram 79,84% dos assassinatos de trabalhadores sem-terra no período, segundo o relatório da CPT.
A análise sustenta que os assassinatos e massacres estão ligados a disputas mais amplas sobre terra e território. “Nos momentos em que se colocam em debate mudanças na estrutura fundiária brasileira, cresce também a eliminação física daqueles que lutam pelo direito à terra e ao território”, afirma o texto.
Violência concentrada na Amazônia Legal
Dos 26 assassinatos registrados em 2025, 16 ocorreram na Amazônia Legal. O relatório aponta ainda que 20 mortes envolveram fazendeiros como causadores da violência.
Entre as vítimas, os trabalhadores sem-terra aparecem como o principal grupo atingido em 2025, com dez assassinatos. Em seguida, estão indígenas, com sete mortes, e posseiros, com quatro.
O relatório destaca que 2025 foi uma exceção em relação aos anos anteriores, quando os assassinatos de indígenas vinham superando os de sem-terra. Segundo a análise, o aumento de mortes de trabalhadores sem-terra é um dos elementos que diferenciam o último ano dentro da série recente.
“O perfil continua sendo o mesmo: sem-terra e indígenas, principalmente”, lamenta o coordenador da CPT, Carlos Lima.
Na avaliação de Lima, a impunidade é parte central da permanência da violência. “Nós não entendemos a impunidade como falha do sistema, mas como um componente importante para o uso da violência”, diz. “Nem se faz a reforma agrária, nem se reconhecem os territórios originários, e não se pune quem comete a violência, quem paga para cometer essa violência e quem manda cometer essa violência.”
Terra, água e trabalho
A violência letal aparece dentro de um quadro mais amplo de conflitos no campo. Em 2025, a CPT registrou 1.286 conflitos por terra, 159 conflitos trabalhistas e 148 conflitos pela água. Os dados mostram que a disputa não se limita à posse da terra, mas envolve também o controle dos territórios, dos recursos naturais e da força de trabalho.
Nos conflitos por terra, o relatório aponta a permanência de um padrão histórico de concentração fundiária, grilagem e expulsão de comunidades. Já nos conflitos pela água, a CPT relaciona parte das violações à mineração, às barragens e à apropriação privada dos recursos hídricos. No caso dos conflitos trabalhistas, o destaque é o trabalho escravo rural, com 2.234 pessoas envolvidas em 2025.
Esse conjunto de violências tem como pano de fundo a expansão do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos hídricos e energéticos sobre territórios camponeses, indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais.
No relatório, a análise sobre os conflitos por terra afirma que o agronegócio passou a disputar a narrativa pública como setor moderno e produtivo, enquanto buscava “silenciar a conflitualidade que se espraiava pelo campo” e os custos ambientais do modelo.
O coordenador da CPT afirma que a violência no campo está ligada à não resolução da questão agrária brasileira e à ausência de reconhecimento de territórios indígenas e quilombolas. Ele também aponta uma tendência recente de aumento das tensões em razão da mineração, da transição energética e de obras de infraestrutura voltadas ao avanço do capital.
“Há uma tendência com a corrida da energia renovável, da transição energética, que gera a busca por mais mineração, e também a ação do Estado no sentido de promover logística, como construção de estradas, linhas de transmissão, portos e infraestrutura para o capital”, afirma Lima.
*Com informações do Brasil de Fato
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