Agronegócio criminoso: 9 em cada 10 casos de desmatamento têm indícios de irregularidade no Brasil

Quase todos os casos de desmatamento registrados no Brasil em 2025 apresentaram algum indício de irregularidade. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), da rede MapBiomas, 96% dos alertas validados no país apresentaram ao menos um sinal de possível ilegalidade. Na prática, significa que apenas 4% dos casos identificados não apresentaram indícios de problemas relacionados à legislação ambiental.

Os dados aparecem em um ano em que a expansão agropecuária respondeu por praticamente toda a pressão sobre a vegetação nativa brasileira. Segundo o levantamento, o setor esteve associado a 99% da área desmatada no país em 2025. Nos últimos sete anos, essa participação ficou acima de 97%.

Segundo o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, trata-se de um comportamento concentrado em uma parcela reduzida de propriedades. “O fenômeno do desmatamento é localizado em poucos [imóveis]. A grande maioria não tem fenômenos de desmatamento acontecendo”, afirmou.

Em sete anos, 310 mil imóveis rurais tiveram registros de desmatamento, o equivalente a menos de 4% dos imóveis cadastrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR). Segundo o MapBiomas, mais de 95% das propriedades cadastradas não tiveram ocorrências registradas no período.

Apesar da persistência do desmatamento ilegal, os dados do Mapbiomas mostram uma queda geral do desmatamento no país. Em 2025, o Brasil perdeu 984.794 hectares de vegetação nativa, redução de 20,6% em relação a 2024 e, pela primeira vez desde 2019, o número ficou abaixo de 1 milhão de hectares desmatados. Entre os estados, Maranhão, Piauí, Bahia, Tocantins e Mato Grosso lideraram o ranking do desmatamento em 2025, todos com perdas superiores a 100 mil hectares de vegetação nativa ao longo do ano.

Os dados também sugerem que a queda recente do desmatamento pode estar associada ao aumento da atuação do poder público. Em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), apenas 5% da área desmatada no país havia recebido algum tipo de ação estatal, como autorizações, autuações ou embargos. Em 2025, esse percentual chegou a 65%, o equivalente a quase dois terços das áreas atingidas.

Para Tasso Azevedo, o avanço do monitoramento e da fiscalização ajuda a explicar a trajetória recente dos números. Segundo ele, o aumento das ações sobre áreas desmatadas acompanha justamente o período em que os índices nacionais passaram a cair.

“Em 2019, a chance de haver uma ação sobre uma área desmatada era de 5%. Agora já é de dois terços. A chance de que haja uma ação em uma área desmatada é muito maior do que a chance de não ter uma ação”, afirmou Azevedo.

Como o MapBiomas identifica indícios de irregularidade

O levantamento considera quatro critérios principais para verificar possíveis irregularidades nos alertas de desmatamento identificados por satélite: existência de autorização para supressão da vegetação, sobreposição com áreas protegidas por lei, cruzamento com áreas de Reserva Legal e Área de Preservação Permanente (APP), além da existência de embargos ou outras restrições administrativas.

Isso não significa automaticamente que todos os casos identificados sejam ilegais ou tenham resultado em condenações administrativas ou judiciais. O próprio relatório trata esses registros como indícios, a partir do cruzamento de bases públicas de dados ambientais.

Entre 2019 e 2025, o levantamento aponta que 603.602 hectares desmatados não apresentaram sinais de ilegalidade. O número representa 5,5% da área total desmatada no período.

Ao comentar os dados, o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, afirmou que a agropecuária domina o cenário do desmatamento nacional e tem características diferentes dependendo do território analisado.

“No caso do Matopiba é a agricultura. No caso da Amazônia, é mais a pastagem primeiro e depois a agricultura”, explicou. Segundo ele, atividades como mineração, expansão urbana e empreendimentos energéticos aparecem como vetores mais localizados e têm participação menor no total da área desmatada.

Amazônia e Cerrado concentram pressão, mas têm perfis diferentes

Os dois principais biomas em área desmatada também apresentam dinâmicas distintas em relação aos sinais de regularidade. Segundo Tasso Azevedo, o Cerrado tende a apresentar índices relativamente maiores de regularidade quando comparado à Amazônia. Ele relaciona essa diferença a fatores como a situação fundiária e às regras do Código Florestal aplicadas a cada bioma.

“O grau de regularidade é maior no Cerrado do que na Amazônia”, observou. O Pantanal aparece como exceção. Segundo o coordenador, o bioma registra menos irregularidades porque reúne menos eventos, geralmente maiores e concentrados em propriedades extensas com autorização ambiental.

*Com informações do Brasil de Fato

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