Ceilândia em Alerta — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá três grandes desafios econômicos no quarto mandato: equilibrar as contas públicas, enfrentar a desaceleração do crescimento e reduzir a insatisfação dos brasileiros com o custo de vida e o endividamento. Economistas avaliam que as decisões tomadas no início do governo serão importantes para definir o desempenho da economia nos próximos anos.
A pressão sobre o orçamento público e o peso das despesas das famílias influenciam o debate sobre as políticas econômicas. Nesse cenário, o governo também enfrenta o desafio de manter os programas sociais sem comprometer o equilíbrio fiscal, tema que aparece nas discussões sobre o resultado das contas públicas e o déficit registrado em agosto.
Contas públicas exigem medidas de ajuste
A dívida bruta do governo geral chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do Banco Central citados na reportagem original. Quando as despesas superam as receitas, o governo precisa recorrer a empréstimos, o que pode aumentar o custo de financiamento e dificultar a estabilização da dívida.
Economistas defendem a apresentação de um plano para controlar o crescimento dos gastos. Entre as alternativas discutidas estão a revisão de despesas obrigatórias, benefícios tributários e emendas parlamentares, além de mudanças nas regras de reajuste de determinadas despesas públicas.
O desafio será conciliar o controle fiscal com a manutenção de investimentos e políticas sociais. Um ajuste muito rápido pode reduzir a atividade econômica, enquanto a falta de medidas para estabilizar as contas pode manter a desconfiança dos investidores e pressionar os juros.
Crescimento econômico pode perder força em 2027
Outro obstáculo será a perspectiva de desaceleração da economia. As projeções citadas no levantamento indicavam crescimento de 1,83% em 2026 e de 1,32% em 2027, com possibilidade de um resultado ainda menor no próximo ano.
Entre os fatores apontados estão os juros elevados, a redução de estímulos fiscais após o período eleitoral e as incertezas sobre a produção agropecuária. Eventuais perdas de safra também podem pressionar os preços dos alimentos.
Para estimular a atividade, Lula pretende dar continuidade a iniciativas como o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a Nova Indústria Brasil e o Plano de Transformação Ecológica. O governo também aposta na ampliação do crédito para pequenos negócios e no fortalecimento da renda e do consumo interno.
A avaliação dos economistas é que investimentos e estímulos à demanda precisam ser acompanhados de medidas que aumentem a produtividade e a capacidade de crescimento do país no longo prazo.
Custo de vida e endividamento pesam no orçamento das famílias
A terceira frente será melhorar a percepção dos brasileiros sobre a economia. Apesar de alguns indicadores de renda terem avançado em relação a 2022, o poder de compra ainda enfrenta limitações, e muitas famílias continuam comprometidas com dívidas.
Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) citados na reportagem apontavam que 81,7% das famílias estavam endividadas em setembro de 2026.
Para enfrentar o problema, Lula apresentou propostas como uma nova etapa do programa Desenrola, voltada à renegociação de dívidas, além de medidas destinadas a pequenos empreendedores. O Desenrola 3.0, que prevê renegociação de dívidas antigas com descontos elevados, é uma das iniciativas voltadas a aliviar o orçamento de consumidores endividados.
O presidente também pretende manter a política de valorização real do salário mínimo e ampliar programas de apoio à agricultura familiar, com o objetivo de contribuir para a oferta de alimentos.
Economistas, porém, alertam que a renegociação de débitos pode aliviar a situação imediata, mas não resolve sozinha as causas do endividamento. A redução sustentável dos juros e o equilíbrio das contas públicas são apontados como fatores importantes para ampliar o acesso ao crédito em condições mais favoráveis.
Articulação política será decisiva
As medidas econômicas também dependerão da capacidade do governo de negociar com o Congresso Nacional. Mudanças em despesas obrigatórias, benefícios fiscais e regras orçamentárias enfrentam resistências políticas e exigem articulação entre os Poderes.
O desafio de Lula será combinar responsabilidade fiscal, crescimento econômico e proteção da renda sem aprofundar a desaceleração. Para os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o desempenho do quarto mandato dependerá não apenas dos resultados imediatos, mas também da capacidade de criar condições para um crescimento mais consistente nos anos seguintes.
Fonte: Correio Braziliense



