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Serviço da dívida previsto para 2026 é 45 vezes maior que necessidade estimada para metas climáticas

Vista aérea de uma área urbana atingida por fortes alagamentos e enxurrada, mostrando uma via asfaltada destruída e dividida pela correnteza de água barrenta. Na parte inferior, pessoas seguram guarda-chuvas coloridos observando os estragos, ao lado de uma estrutura de ponte ou obra rodoviária.
Vista aérea mostra alagamento provocado pelo rio Taquari em Roca Sales (RS), em 22 de julho de 2026. | Crédito: Gustavo Ghisleni/AFP

Relatório da ActionAid estima R$ 2,32 trilhões para obrigações da dívida brasileira e R$ 50,88 bilhões para financiar a parcela das metas climáticas que depende de recursos nacionais.

Ceilândia em Alerta – O Brasil tem US$ 437,6 bilhões, equivalentes a cerca de R$ 2,32 trilhões, previstos para o serviço da dívida em 2026, montante aproximadamente 45 vezes superior aos US$ 9,6 bilhões — cerca de R$ 50,88 bilhões — estimados como necessários para financiar a parcela das metas climáticas que deverá ser custeada pelo próprio país.

Os números aparecem no relatório Dívida agrava crise climática: Como o Financiamento Flui, elaborado pela ActionAid em parceria com a Development Finance International (DFI).

O serviço da dívida corresponde aos recursos destinados ao cumprimento das obrigações financeiras relacionadas ao endividamento. No estudo, são consideradas tanto a dívida interna quanto a externa.

A comparação, entretanto, exige uma distinção importante: os US$ 9,6 bilhões não correspondem ao que o Brasil efetivamente gasta atualmente com políticas climáticas. O valor representa a necessidade de financiamento estimada pelo estudo para as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) incondicionais, ou seja, a parte das metas climáticas que deverá ser financiada com recursos do próprio país.

Da mesma forma, os valores referentes ao serviço da dívida são previsões orçamentárias para 2026, e não o total efetivamente desembolsado até agora.

Dívida equivale a 40,8% das receitas estimadas

De acordo com o levantamento, os US$ 437,6 bilhões previstos para o serviço da dívida correspondem a aproximadamente 40,8% das receitas governamentais brasileiras estimadas para 2026, calculadas em US$ 1,07 trilhão, ou cerca de R$ 5,67 trilhões.

O estudo também compara o serviço da dívida com despesas públicas em outras áreas. Pelos cálculos apresentados, o montante previsto é equivalente a 3,05 vezes os gastos com educação e 8,12 vezes os gastos com saúde.

Para chegar aos números, a DFI utilizou dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e documentos orçamentários dos governos.

O Brasil aparece em uma tabela complementar do levantamento e não integra o grupo principal de 65 países considerados pela pesquisa como mais vulneráveis à crise climática.

Nesse conjunto de países mais vulneráveis, a ActionAid calcula que os recursos destinados ao serviço da dívida são quase 25 vezes superiores aos orçamentos para ações climáticas.

A situação é particularmente crítica em alguns países. Segundo o relatório, Angola, Congo, Moçambique, Níger e Senegal têm mais de 80% das receitas comprometidas com o serviço da dívida.

Em Bangladesh, Burundi, Guiné-Bissau, Malawi, Paquistão e Serra Leoa, o montante previsto chega a ultrapassar 100% das receitas nacionais. O relatório explica que isso pode ocorrer porque novos empréstimos são utilizados para refinanciar obrigações anteriores.

Organização defende mudanças no tratamento das dívidas

A ActionAid argumenta que níveis elevados de endividamento podem reduzir o espaço fiscal disponível para investimentos públicos em adaptação e enfrentamento às mudanças climáticas.

A organização também relaciona a questão ao financiamento de serviços essenciais, como saúde e educação, principalmente em países mais vulneráveis economicamente e aos efeitos dos eventos climáticos extremos.

Entre as propostas apresentadas pelo relatório está o cancelamento de dívidas consideradas injustas ou insustentáveis, além da suspensão temporária dos pagamentos de países atingidos por grandes desastres climáticos.

A ActionAid também defende que parte do financiamento climático internacional seja oferecida por meio de doações, em vez de novos empréstimos que possam aumentar o endividamento dos países beneficiados.

Outra proposta é a criação de uma Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Dívida Soberana, acompanhada de um mecanismo multilateral para lidar com crises de endividamento.

Essas propostas representam as recomendações da própria organização e não constituem políticas já adotadas pelo governo brasileiro ou por organismos internacionais.

O estudo procura relacionar dois desafios fiscais: de um lado, as obrigações assumidas pelos governos com seus credores; de outro, a necessidade crescente de recursos para adaptação, redução de emissões e proteção da população diante das mudanças climáticas.

No caso brasileiro, a comparação de 45 vezes apresentada pela ActionAid deve ser interpretada dentro dessa metodologia: ela confronta a previsão do serviço da dívida em 2026 com uma estimativa específica de financiamento nacional necessário para as metas climáticas, e não diretamente com o orçamento climático efetivamente executado pelo país.


🔍 Fonte: Brasil de Fato; ActionAid; Development Finance International.

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