Ceilândia em Alerta — A anestesia geral é utilizada diariamente em procedimentos médicos em todo o mundo, mas seu mecanismo exato ainda não é completamente compreendido pela ciência. Ao provocar temporariamente um estado de inconsciência, os anestésicos oferecem aos pesquisadores uma oportunidade para investigar como o cérebro produz e mantém a consciência.
Um exemplo histórico é o do almirante britânico Horatio Nelson, que teve o braço direito amputado em 1797. Segundo relatos, ele teria recebido apenas um gole de rum antes do procedimento. A anestesia geral utilizada em cirurgias só surgiria quase 50 anos depois.
Atualmente, milhões de procedimentos cirúrgicos são realizados com anestesia geral todos os anos. Mesmo com a ampla utilização desses medicamentos, ainda existem dúvidas sobre quais mecanismos cerebrais são responsáveis pelo estado de inconsciência provocado por eles.
Como os anestésicos atuam
Existem diferentes tipos de anestésicos, com funções que vão desde o bloqueio da dor até a indução do sono e da inconsciência. Na anestesia geral, o efeito é mais profundo: o paciente deixa de ter percepção consciente do que ocorre durante o procedimento.
Medicamentos utilizados para esse fim possuem estruturas químicas diferentes, mas muitos interferem na comunicação entre as células nervosas do cérebro.
Exames de imagem mostram uma redução generalizada da atividade cerebral durante a anestesia. Uma das questões investigadas pelos pesquisadores é se a perda da consciência ocorre devido a uma interrupção global da atividade cerebral ou se determinadas regiões desempenham papel mais importante nesse processo.
O professor de biofísica e anestesia Nick Franks, do Imperial College London, aponta o tálamo como uma das estruturas que merecem atenção.
Localizado em uma região profunda do cérebro, o tálamo funciona como uma espécie de centro de comunicação entre diferentes áreas cerebrais. Estudos indicam que ele está entre as primeiras estruturas a apresentar redução de atividade durante a anestesia geral.
Tálamo pode ter relação com o despertar
O tálamo também participa dos mecanismos relacionados ao sono. Por isso, uma das hipóteses estudadas é que a anestesia geral possa interferir em circuitos cerebrais envolvidos naturalmente no sono e no despertar.
Segundo Franks, experimentos com animais demonstraram que a estimulação de determinadas áreas do tálamo pode provocar o despertar mesmo após a indução da anestesia.
Pesquisas também investigam se a estimulação talâmica pode ajudar pessoas em estado de coma a recuperar algum nível de consciência. Os resultados, porém, ainda não são suficientes para determinar exatamente qual é o papel da estrutura na anestesia.
Outra linha de investigação concentra-se no córtex cerebral, camada externa e enrugada do cérebro. Regiões como os lobos frontal e parietal também estão relacionadas a funções cognitivas e ao processamento de informações sensoriais.
Um possível “terceiro estado” de consciência
A anestesia também trouxe evidências de que a relação entre consciência e inconsciência pode ser mais complexa do que uma simples chave de liga e desliga.
Em alguns casos, pacientes relatam lembranças de acontecimentos durante uma cirurgia. Esse fenômeno é conhecido como consciência acidental.
O anestesista Jaideep Pandit, dos Hospitais da Universidade de Oxford, investiga a possibilidade de existir um estado intermediário entre estar completamente consciente e inconsciente.
Em um experimento, pacientes receberam anestésico e relaxante muscular. Um torniquete foi utilizado para impedir que o medicamento paralisasse o antebraço, permitindo que os participantes movimentassem a mão caso recebessem um comando.
Parte dos pacientes conseguiu apertar os dedos quando solicitado, mesmo sem apresentar outros sinais externos de que estivesse acordada.
Para Pandit, os resultados levantam a possibilidade de que determinados níveis de consciência possam permanecer ativos durante a anestesia, embora sejam necessários mais estudos para compreender o fenômeno.
Anestesia ajuda a investigar a consciência
A consciência é considerada um dos grandes problemas ainda não solucionados pela ciência. A anestesia geral permite estudar esse fenômeno porque consegue alterar rapidamente o estado consciente de uma pessoa sem necessariamente causar danos permanentes ao cérebro.
O neurocientista Andrea Luppi, da Universidade de Cambridge, utilizou exames de ressonância magnética funcional para investigar como a comunicação entre diferentes regiões cerebrais muda durante a anestesia.
Uma das medidas analisadas foi a chamada conectividade funcional, que avalia como diferentes áreas do cérebro coordenam sua atividade.
Quando uma pessoa está acordada, os padrões de atividade cerebral apresentam características individuais. Luppi e seus colegas observaram que, sob anestesia, essas diferenças diminuem: os cérebros dos participantes tornam-se mais semelhantes entre si.
Os pesquisadores também identificaram maior semelhança entre o cérebro humano anestesiado e o de outros primatas. A observação levanta a hipótese de que regiões mais recentes na evolução humana estejam entre as mais afetadas pela anestesia.
Consciência pode depender de uma rede
Uma das interpretações desses resultados é que a consciência não estaria concentrada em uma única região do cérebro. Em vez disso, ela dependeria da comunicação coordenada entre diferentes áreas.
Segundo essa hipótese, quando estamos acordados, diversas regiões cerebrais conseguem trocar informações e formar padrões complexos de atividade. Sob anestesia, essa comunicação seria reduzida, dificultando a integração entre áreas que normalmente trabalham de maneira coordenada.
Essa linha de pesquisa também pode ajudar os cientistas a compreender outros estados alterados de consciência, incluindo os provocados por substâncias psicodélicas.
Enquanto os anestésicos reduzem a comunicação entre diferentes regiões cerebrais, estudos sobre substâncias psicodélicas indicam alterações que podem ampliar ou reorganizar as conexões entre essas áreas.
Apesar dos avanços, pesquisadores ressaltam que ainda não existe uma explicação definitiva para o funcionamento da consciência.
“Nossa compreensão da consciência é muito rudimentar”, afirmou Boris Heifets, professor de anestesiologia, medicina perioperatória e dor da Universidade Stanford.
Fonte: Correio Braziliense



