Ceilândia em Alerta — Variações significativas da pressão arterial ao longo do tempo podem estar associadas a um maior risco de acidente vascular cerebral (AVC) e morte, segundo estudo apresentado nesta segunda-feira (28), durante a reunião anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, em Milão, na Itália.
Pequenas alterações na pressão ao longo do dia são comuns e podem ocorrer em situações como estresse e esforço físico. O estudo, porém, analisou a variabilidade da pressão entre diferentes consultas e identificou uma associação entre grandes oscilações e maior risco de complicações.
A pesquisa utilizou informações do UK Biobank, banco de dados de saúde do Reino Unido, e acompanhou os participantes por aproximadamente cinco anos.
Estudo avaliou mais de 57 mil pessoas
Ao todo, foram analisados 57.611 participantes. Desse grupo, 50.744 apresentavam níveis normais de glicose, 5.397 tinham pré-diabetes e 1.470 estavam em tratamento para diabetes tipo 2.
Durante o período de acompanhamento, 571 participantes sofreram um AVC, 1.460 morreram e 319 desenvolveram demência.
Os pesquisadores avaliaram a variação da pressão arterial entre as consultas, considerando o intervalo entre as medições. Foram analisadas quatro medidas: pressão sistólica, diastólica, pressão arterial média e pressão de pulso.
Segundo os resultados, maior variabilidade esteve associada a maior risco de morte por qualquer causa. Na pressão sistólica, cada aumento na variabilidade foi associado a um risco 11% maior de morte e 10% maior de AVC. Para a pressão diastólica, os aumentos associados foram de 8% e 12%, respectivamente.
Diabetes aumentou a associação observada
Os pesquisadores também cruzaram a variabilidade da pressão com os níveis de glicose no sangue.
Em comparação com participantes que tinham glicemia normal e pouca variação da pressão, pessoas com diabetes tipo 2 e alta variabilidade da pressão arterial apresentaram risco 2,8 vezes maior de morrer durante o período analisado.
Entre participantes com pré-diabetes e alta variabilidade da pressão sistólica, o risco de morte foi 62% maior em comparação com aqueles que tinham glicemia normal e baixa variabilidade.
As estimativas também apontaram diferença no risco de morte em dez anos. Entre pessoas com glicemia adequada e baixa variabilidade sistólica, o risco estimado foi de aproximadamente 1%. No grupo com diabetes tipo 2 e alta variabilidade, chegou a cerca de 2,9%.
O estudo, entretanto, identificou associações estatísticas e não permite afirmar, isoladamente, que as oscilações da pressão sejam a causa direta dos eventos observados.
Por que a pressão pode variar?
A variabilidade da pressão arterial pode estar relacionada a diferentes fatores. Entre as possibilidades levantadas pelos especialistas estão adesão irregular ao tratamento, hábitos de vida e alterações cardiovasculares.
A cardiologista Erika Campana, presidente do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia, explicou que oscilações repetidas podem estar relacionadas à chamada instabilidade cardiovascular e a alterações nos vasos sanguíneos.
Segundo ela, picos frequentes de pressão podem afetar órgãos como cérebro e rins, enquanto quedas excessivas também podem ser prejudiciais em pessoas que apresentam aterosclerose, rigidez arterial ou alterações na capacidade de autorregulação.
Acompanhamento continua sendo importante
Especialistas ouvidos pelo estudo destacam que o acompanhamento regular da pressão arterial continua sendo uma medida importante para identificar alterações cardiovasculares.
O cardiologista Vinícius Marques Rodrigues ressalta que muitas pessoas com hipertensão não apresentam sintomas. Por isso, a aferição periódica pode contribuir para a identificação precoce do problema.
Pessoas sem fatores de risco devem conversar com um profissional de saúde sobre a frequência adequada de aferição. Para quem tem histórico familiar de hipertensão ou doença cardiovascular, além de sobrepeso ou obesidade, o acompanhamento pode precisar ser mais frequente.
A recomendação também é especialmente relevante para pessoas com diabetes, já que o estudo encontrou associação mais forte entre a alta variabilidade da pressão e o risco de morte nesse grupo.
A pesquisa reforça a importância de observar não apenas uma medida isolada da pressão, mas também seu comportamento ao longo do tempo. Qualquer alteração persistente deve ser avaliada por um profissional de saúde.
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Fonte: Correio Braziliense



