Ceilândia em Alerta — O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, afirmou em depoimento à Polícia Federal (PF) que o então governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), pediu que ele estruturasse uma operação para vender o banco público ao Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro. Segundo o relato, a solicitação ocorreu durante um jantar na residência do banqueiro, em 24 de setembro de 2024.
De acordo com Paulo Henrique, o encontro foi organizado após uma convocação feita pelo gabinete do governador. O ex-dirigente disse que estava na Bahia e tentou evitar a reunião, mas precisou retornar para Brasília.
Durante o depoimento, ele afirmou que, no jantar, Ibaneis teria feito o pedido diretamente: “Paulo, estrutura uma venda do BRB para o Master”. Costa declarou ter ficado surpreso e contrariado com a solicitação, porque, segundo ele, a orientação até então era não vender o banco público.
O depoimento acrescenta um novo elemento às investigações sobre as negociações entre o BRB e o Banco Master. O TaguaCei já havia publicado informações sobre as versões divergentes apresentadas por Ibaneis e Vorcaro a respeito dos encontros e das conversas envolvendo as duas instituições. Ibaneis negou ter tratado com Vorcaro sobre a compra do Banco Master.
Reunião na Suíça também aparece na investigação
Relatórios da Polícia Federal apontam que as articulações entre os envolvidos continuaram nos meses seguintes. Segundo os investigadores, em 20 de janeiro de 2025, Paulo Henrique informou a Vorcaro que Ibaneis havia solicitado a marcação de uma nova reunião.
Três dias depois, em 23 de janeiro, os três se encontraram em Zurique, na Suíça. Um quarto participante, identificado no relatório apenas como Leonardo, também teria participado da reunião.
Em 26 de janeiro, Vorcaro voltou a procurar Paulo Henrique para perguntar sobre o andamento das negociações. A mensagem teria sido motivada por uma pergunta do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Conforme a PF, o então presidente do BRB demonstrou preocupação com a possibilidade de vazamento das tratativas.
Os investigadores também identificaram movimentações financeiras expressivas no período. Entre outubro de 2024 e fevereiro de 2025, o BRB comprou R$ 9,52 bilhões em carteiras de crédito emitidas pelo Banco Master. Em aproximadamente um ano, o volume das operações chegou a R$ 16,7 bilhões.
Documentos reunidos pela investigação já apontavam a participação de Ibaneis nas tratativas relacionadas à tentativa de aquisição do banco privado pelo BRB. Registros indicaram a participação do então governador nas negociações.
PF aponta interferência direta de Ibaneis
Em um dos relatórios, a Polícia Federal afirma que Ibaneis não teria se limitado às atribuições institucionais do cargo de governador. Para os investigadores, ele atuou em diferentes frentes das negociações, incluindo a articulação com agentes privados, a validação de decisões operacionais, a definição da estratégia de expansão do BRB e a autorização dos valores relacionados ao aumento de capital.
A PF também aponta que decisões estratégicas eram submetidas previamente à apreciação do então governador, antes mesmo de passar pelos órgãos formais de governança do banco.
Os investigadores classificam essa dinâmica como indicativa de possível “captura institucional”, sob o argumento de que a estrutura decisória do banco público teria sido direcionada a interesses específicos, em prejuízo dos princípios de impessoalidade, moralidade e interesse público.
Outro trecho do relatório afirma que o Banco Master teria passado a integrar indiretamente a estrutura acionária do BRB por meio de fundos de investimento, entre eles Borneo, Verbier e Delta. Segundo a investigação, essas estruturas teriam sido utilizadas para ocultar os beneficiários finais e evitar a caracterização formal de controle ou participação qualificada.
Defesa de Ibaneis nega interferência
A defesa de Ibaneis Rocha negou que o ex-governador tenha pressionado ou interferido nas operações realizadas entre o BRB e o Banco Master.
Em nota, os advogados afirmaram que Paulo Henrique Costa tinha autonomia para conduzir as negociações e que o contato de Ibaneis com os envolvidos ocorreu em contexto institucional. A defesa também argumentou que o relatório da PF não apresenta mensagens diretas entre o ex-governador e Daniel Vorcaro.
Os representantes de Ibaneis sustentam que o documento policial não permite atribuir responsabilidade ao ex-chefe do Executivo do DF.
Defesa de Paulo Henrique também se manifesta
A defesa de Paulo Henrique Costa afirmou que operações dessa dimensão dependiam de aprovação do Conselho de Administração do BRB, órgão do qual o Governo do Distrito Federal participava como acionista majoritário.
Os advogados argumentam que o ex-presidente não poderia realizar sozinho uma operação dessa natureza e que os mecanismos internos de governança impediriam a concretização de qualquer negócio irregular sem aprovação das instâncias competentes.
Paulo Henrique, Daniel Vorcaro e outros envolvidos são investigados no caso. As conclusões da Polícia Federal ainda deverão ser analisadas pelas autoridades responsáveis, e as manifestações das defesas integram o debate sobre a participação de cada um nas negociações.
Fonte: g1



