Paulo Roberto diz que julgamento mostra que houve tentativa de golpe e articulação internacional contra Brasil
A primeira semana do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da trama golpista que envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros sete réus foi marcada por defesas frágeis e por manifestações incisivas de ministros da Corte. É o que avalia o cientista político Paulo Roberto, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, nesta quinta-feira (4).
“Eu avalio como dias muito protocolares, apesar de ontem terem acontecido algumas das importantes defesas, dentre elas a manifestação da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro. (…) A tendência é que eles sejam mesmo condenados, porque pouco se conseguiu defender os seus clientes, os advogados pouco conseguiram defender, e sim colocaram [seus clientes] sob mais suspeição”, analisa.
Segundo ele, o próprio conteúdo das falas dos advogados acabou reforçando as acusações. Em alguns momentos, ministros intervieram para corrigir distorções, como quando a ministra Cármen Lúcia rebateu a tese de que o sistema eleitoral não seria auditável.
Defesa frágil e disputa de narrativas
Para Paulo Roberto, a estratégia da defesa de Bolsonaro se mostrou inconsistente. “É uma defesa muito atrapalhada, uma defesa que efetivamente tem poucos argumentos a não ser falar ‘Não, veja bem, ele não estava muito a fim de dar esse golpe’, ‘Foram outras pessoas que fizeram’”, ironiza.
O cientista político destaca que a tentativa dos advogados foi associar golpe de Estado apenas a ações militares explícitas, como tanques nas ruas, ignorando provas documentais e articulações políticas já evidenciadas. Ele lembra que o julgamento também abre uma “disputa de ressignificação do que significa golpe de Estado”, retomando debates desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016.
Interferência internacional e Eduardo Bolsonaro
Paulo Roberto também aponta a importância de o STF registrar tentativas de pressão externa relacionadas ao julgamento, como o tarifaço contra com Brasil aplicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a atuação do deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
“Eduardo Bolsonaro já foi o articulador desse tarifaço (…) tratado como aquele que estava trabalhando de fato contra os interesses nacionais, a favor de uma agenda muito particular de defesa do seu pai e trabalhando contra o seu país”, relembra.
Para ele, é fundamental que esse processo fique marcado na história como uma defesa da soberania nacional e da autonomia do Judiciário brasileiro.
Ausência e estratégia política
Sobre a ausência de Bolsonaro nas sessões, o cientista político acredita que se trata de uma escolha calculada. “O que a ausência dele demonstra (…) é o seguinte: nós não estamos aí porque nós não reconhecemos esse julgamento como julgamento justo. (…) É a manutenção do próprio discurso de que ele é um perseguido político”, indica.
‘Ataque à democracia não acaba com condenação de Bolsonaro’
Paulo Roberto avalia que a condenação dos réus é o desfecho mais provável e que o julgamento deve terminar até 12 de setembro. Mas alerta que o debate não termina no STF. “O que vamos assistir agora está menos no prédio do STF e muito mais no prédio do Congresso, que é toda essa articulação de Centrão com a extrema direita para tentar colocar em votação (…) uma lei de anistia que beneficie, entre as diversas pessoas, o presidente Jair Bolsonaro”, pontua.
Ele destaca que esse movimento tem contado com a liderança do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tratado por setores da elite como figura moderada, mas que, segundo o cientista político, atua em linha com o bolsonarismo. O gestor é um dos nomes mais fortes para substituir Bolsonaro na próxima corrida eleitoral para a presidência, em 2026.
“O ataque à nossa democracia não se encerra com a condenação do Bolsonaro e dos seus aliados. (…) No sentido mais radical de uma possibilidade de um Tarcísio, por alguma consequência do voto, vir a ser presidente da República, nós teremos necessariamente mais uma tentativa de esgarçamento da democracia por dentro, com restrições cada vez maiores nesse processo, como a anuência do Centrão, que, notadamente, quer ter mais poder do que já tem, e de setores da nossa elite”, alerta.
Com informações do brasildefato
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