Ceilândia em Alerta — A disputa em torno do comando da Polícia Federal voltou a provocar tensão institucional em Brasília. Em artigo publicado pelo Vermelho, o ministro André Mendonça é acusado de adotar, a partir do Supremo Tribunal Federal (STF), uma postura semelhante à atribuída ao ex-presidente Jair Bolsonaro em 2020, quando o então presidente foi acusado de tentar interferir na corporação para proteger aliados e integrantes de seu entorno.
Na terça-feira (8), Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. A medida chegou a obter maioria na Segunda Turma do STF, mas foi posteriormente revertida pelo ministro Flávio Dino.
A decisão de Mendonça ocorreu em meio à divulgação de relatórios internos da Polícia Federal que, segundo o artigo, apontariam questionamentos sobre a atuação do ministro em investigações envolvendo o Banco Master e fraudes no INSS.
Crise de 2020 envolvendo Bolsonaro
O texto compara o episódio atual à crise ocorrida em abril de 2020, durante o governo Jair Bolsonaro. Naquele período, o então presidente pressionou pela substituição de integrantes da estrutura da Polícia Federal no Rio de Janeiro.
Em uma reunião ministerial realizada em 22 de abril daquele ano, Bolsonaro afirmou que não aceitaria esperar que sua família ou seus amigos fossem prejudicados e defendeu mudanças na estrutura da segurança pública.
Dois dias depois, Maurício Valeixo deixou o cargo de diretor-geral da Polícia Federal. O então ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu demissão e acusou Bolsonaro de tentar interferir politicamente na PF para obter informações e influenciar investigações envolvendo familiares e aliados.
Em depoimento à Polícia Federal, Moro também relatou uma mensagem atribuída ao então presidente na qual Bolsonaro teria demonstrado interesse específico pela Superintendência da PF no Rio de Janeiro.
Trocas no comando da PF
Durante o governo Bolsonaro, diversas mudanças ocorreram em cargos de chefia da Polícia Federal. Entre os episódios citados estão a saída de Ricardo Saadi da Superintendência no Rio de Janeiro, a substituição de Valeixo, a indicação de Alexandre Ramagem para a direção-geral — posteriormente barrada pelo STF — e a nomeação de Rolando de Souza para o comando da corporação.
O caso que investigou uma possível interferência de Bolsonaro na Polícia Federal tramitou no STF por meio do Inquérito 4831.
Inicialmente, o procedimento não apontou provas conclusivas de crime, e a Procuradoria-Geral da República, então comandada por Augusto Aras, chegou a solicitar o arquivamento. Em 2025, porém, a PGR, sob a gestão de Paulo Gonet, pediu a reabertura das investigações, posteriormente autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes.
Relação de Mendonça com o governo Bolsonaro
André Mendonça ocupou cargos importantes durante o governo Bolsonaro. Foi advogado-geral da União e, em abril de 2020, assumiu o Ministério da Justiça após a saída de Sergio Moro.
Em 2021, Bolsonaro indicou Mendonça para uma vaga no Supremo Tribunal Federal.
Atualmente, o ministro é relator de investigações relacionadas ao Banco Master e a supostas fraudes envolvendo o INSS. Ele também conduz procedimentos que mencionam o senador Flávio Bolsonaro no contexto do financiamento do filme Dark Horse, associado ao empresário Daniel Vorcaro.
Relatórios da PF provocaram reação no STF
Segundo o artigo publicado pelo Vermelho, relatórios de inteligência da Polícia Federal divulgados pelo ministro Alexandre de Moraes em 3 de setembro fizeram críticas à condução de determinadas investigações sob relatoria de Mendonça.
Os documentos, conforme a publicação, apontariam que o ministro teria ultrapassado atribuições judiciais, direcionado linhas investigativas e adotado tratamento diferente em relação a investigados.
Moraes teria mencionado nos documentos indícios que poderiam configurar improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. As alegações, entretanto, estão inseridas no contexto de uma disputa institucional e ainda dependem da análise das autoridades competentes.
Antes de determinar o afastamento dos diretores da PF, Mendonça havia imposto restrições ao acesso e ao fluxo de informações relacionados às investigações sob sua relatoria.
Mendonça afirma ter sido alvo de monitoramento
Ao determinar o afastamento de Andrei Rodrigues e Leandro Almada, Mendonça alegou ter sido submetido a monitoramento ilegal durante mais de 30 dias.
O ministro classificou os procedimentos como uma forma de “arapongagem institucional” e determinou a abertura de procedimentos penal e administrativo pela Corregedoria da Polícia Federal.
As decisões, entretanto, foram posteriormente suspensas no contexto das decisões divergentes de Mendonça e Flávio Dino.
Cúpula da PF reage
A crise também provocou manifestações internas na Polícia Federal. Em agosto, os 27 superintendentes regionais da corporação haviam divulgado uma nota em defesa da autonomia técnica da instituição e contra a submissão das investigações a interesses políticos ou pessoais.
Nesta semana, diretores da PF voltaram a se manifestar em apoio a Andrei Rodrigues e Leandro Almada, colocando seus cargos à disposição em solidariedade aos dirigentes afastados.
O caso agora está sob análise do presidente do STF, Edson Fachin, que passou a atuar para solucionar o conflito entre as decisões dos ministros da Corte.



