Operação da PF amplia pressão sobre Mendonça em meio à crise no STF

Para cientista político ouvido pelo Brasil de Fato, novas diligências relacionadas ao filme “Dark Horse” enfraquecem tentativa de questionar a atuação da Polícia Federal; avaliação representa interpretação do especialista, enquanto investigações seguem em andamento.

A operação realizada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (10), no âmbito das investigações relacionadas ao filme Dark Horse, acrescentou um novo capítulo à crise que envolve o Banco Master, integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e a direção da própria corporação.

A PF cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e Karina Gama, responsável pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB) e produtora do filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

As diligências investigam a destinação de emendas parlamentares e possíveis relações desses recursos com o financiamento da produção cinematográfica.

A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF, em 3 de setembro, a partir de um pedido encaminhado pela Polícia Federal em 28 de agosto. Portanto, a autorização ocorreu antes de André Mendonça determinar, em 8 de setembro, o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.

Essa sequência de acontecimentos ganhou importância no debate político porque Mendonça havia questionado duramente a atuação da inteligência da Polícia Federal e apontado possíveis irregularidades na produção e divulgação de documentos relacionados às investigações.

Cientista político avalia efeitos da operação

Ao analisar os acontecimentos, o cientista político Gabriel Amaral, ouvido pelo Brasil de Fato, avaliou que a operação desta quinta-feira colocou André Mendonça em uma situação política e institucional mais difícil.

A expressão de que o “tiro de Mendonça saiu pela culatra” corresponde à interpretação apresentada pelo especialista e não a uma conclusão judicial sobre a atuação do ministro.

Mendonça determinou na terça-feira (8) o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues e Leandro Almada depois de afirmar que relatórios produzidos no âmbito da Polícia Federal indicariam um monitoramento indevido de autoridades.

O ministro também determinou que a Corregedoria da PF investigasse os dois dirigentes e suspendeu a produção e o compartilhamento de determinados relatórios relacionados a atividades jurisdicionais, advocacia pública e polícia judiciária.

Mendonça classificou um dos documentos apresentados por Alexandre de Moraes como apócrifo e destacou que o próprio material se apresentava como documento de trabalho, de circulação restrita e “sem valor probatório”.

O relatório havia sido utilizado por Moraes para pedir ao presidente do STF, Edson Fachin, a abertura de uma investigação sobre a atuação de Mendonça no caso Master. Moraes levantou suspeitas de abuso de autoridade e outras possíveis irregularidades, acusações que ainda não foram comprovadas e permanecem submetidas aos procedimentos internos da Corte.

A disputa começou a ganhar dimensão institucional depois que Mendonça retirou o sigilo de informações recuperadas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Parte desse material menciona Alexandre de Moraes e outras autoridades.

A existência das mensagens e referências nos documentos investigativos não comprova, isoladamente, a prática de crimes pelas autoridades mencionadas.

Fachin intervém e plenário discutirá crise

Diante das decisões conflitantes, o presidente do STF, Edson Fachin, decidiu centralizar a condução dos procedimentos relacionados à crise.

Fachin suspendeu tanto a determinação de Mendonça que afastava os dirigentes da Polícia Federal quanto uma decisão posterior de Flávio Dino que ordenava a reintegração. Na prática, Andrei Rodrigues e Leandro Almada permaneceram em seus cargos.

O presidente do Supremo também determinou que procedimentos envolvendo possíveis investigações contra integrantes da Corte passem pela Presidência do tribunal e retirou de Alexandre de Moraes a condução do inquérito das fake news, que passou para sua responsabilidade.

Outra medida foi a convocação de uma sessão extraordinária do plenário para 15 de setembro, quando os 11 ministros deverão discutir aspectos da crise, incluindo o relatório da Polícia Federal relacionado a Moraes e os questionamentos apresentados pela Procuradoria-Geral da República sobre a validade do material e do procedimento adotado.

Nesta quinta-feira, Fachin também solicitou o levantamento do sigilo de partes do caso Banco Master que não comprometam diligências ainda em andamento. Mendonça posteriormente retirou o segredo de Justiça de 15 procedimentos relacionados às investigações.

A operação envolvendo “Dark Horse”, embora tenha ocorrido no mesmo contexto mais amplo das investigações relacionadas a Daniel Vorcaro, não demonstra por si só que as críticas feitas por Mendonça à Polícia Federal sejam procedentes ou improcedentes.

Também não representa comprovação de responsabilidade criminal dos alvos das buscas. Mandados de busca são instrumentos utilizados para reunir elementos de investigação, e eventuais responsabilidades dependerão da análise das provas e dos procedimentos judiciais correspondentes.

O que a operação evidencia é que diferentes frentes investigativas envolvendo o Banco Master e pessoas relacionadas ao ex-banqueiro continuam em andamento, enquanto o Supremo tenta organizar institucionalmente os conflitos surgidos entre seus próprios integrantes e a cúpula da Polícia Federal.


🔍 Fontes: Brasil de Fato; Polícia Federal; Supremo Tribunal Federal (STF).

📰 Edição: Ceilândia em Alerta | Jornal Taguacei

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