Agentes tentaram colher depoimentos de familiares no IML durante o reconhecimento dos mortos da Operação Contenção
Familiares de pessoas mortas na Operação Contenção, considerada a chacina mais letal da história do Brasil, relataram situações de constrangimento e abuso no Instituto Médico Legal (IML) do Rio de Janeiro, para onde os corpos foram levados.
De acordo com reportagem publicada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, policiais tentaram colher depoimentos de parentes no exato momento em que reconheciam os corpos de seus entes queridos.
Interrogatório durante o luto
Segundo a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, os agentes faziam perguntas inapropriadas a mães, pais, irmãos e companheiras das vítimas, questionando se os mortos “trabalhavam”, “em que”, “se andavam em más companhias” ou “se estavam envolvidos com o crime”.
A abordagem, além de invasiva, ocorreu em meio a um momento de profunda dor das famílias.
Defensoria intervém e interrompe interrogatórios
Defensores públicos que acompanhavam o caso passaram a monitorar as ações e alertaram os parentes de que não tinham obrigação de responder às perguntas. O defensor Pedro Carriello afirmou à colunista que, após uma conversa com os agentes, a prática foi interrompida.
“Ali não é a hora e o local de tomar depoimentos”, afirmou Carriello.
“Por mais que houvesse voluntariedade, que as pessoas quisessem falar, o momento não era apropriado. As famílias têm direito ao luto.”
Violação de protocolos e decisões judiciais
O defensor destacou ainda que a atuação dos policiais fere decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e de cortes internacionais, que determinam que, em casos de violência estatal, a própria polícia não pode conduzir as investigações — já que isso implicaria avaliar a conduta de seus próprios integrantes.
Carriello reforçou que, no contexto do reconhecimento de corpos, os agentes só poderiam solicitar informações básicas, como o grau de parentesco, o endereço e documentos que comprovassem a relação familiar com a vítima.
A Operação Contenção, realizada em comunidades do Rio, resultou no maior número de mortes já registrado em uma ação policial no Brasil, reacendendo o debate sobre a violência de Estado, o racismo estrutural e a impunidade de agentes públicos em operações letais.
Com informações do Brasil 247
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