Presidente abre nesta terça-feira o debate da Assembleia Geral das Nações Unidas; pesquisador de Relações Internacionais afirma que discursos diplomáticos dependem de capacidades econômicas, tecnológicas e políticas para produzir efeitos concretos.
Ceilândia em Alerta – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participa nesta terça-feira (22) da abertura do debate geral da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), em Nova York, em um momento de tensão nas relações entre Brasil e Estados Unidos. O discurso ocorre a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições brasileiras e será seguido pela manifestação do presidente norte-americano Donald Trump.
A expectativa em torno da participação brasileira envolve temas como soberania nacional, democracia, multilateralismo, conflitos internacionais e combate ao crime organizado. O Brasil mantém a tradição de abrir o debate de chefes de Estado e de governo da Assembleia Geral.
Em entrevista ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o professor e pesquisador de Relações Internacionais Ricardo Leães avaliou que, embora a tribuna da ONU tenha relevância diplomática, um discurso isolado possui capacidade limitada para alterar concretamente as relações de poder entre os países.
A análise é uma avaliação do especialista e não uma conclusão sobre os efeitos que o pronunciamento de Lula poderá produzir.
Especialista destaca importância do poder econômico e tecnológico
Leães argumenta que a soberania de um país depende não apenas das posições defendidas internacionalmente, mas também de sua capacidade econômica, financeira, industrial, tecnológica e militar.
Para o pesquisador, discursos podem ajudar a apresentar princípios e posições diplomáticas, mas precisam estar acompanhados de políticas e capacidades concretas para produzir mudanças mais profundas nas relações internacionais.
A avaliação ocorre em um contexto de divergências entre Brasília e Washington. Nos últimos meses, os dois governos enfrentaram disputas comerciais e políticas, embora tenham mantido canais de negociação.
Em agosto, representantes dos governos brasileiro e norte-americano retomaram formalmente o diálogo comercial para discutir tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
A soberania também passou a ocupar maior espaço no debate político brasileiro diante das preocupações levantadas por autoridades do país sobre possíveis interferências externas no processo eleitoral.
Leães considera que defender soberania significa também possuir condições para sustentar decisões nacionais diante de eventuais pressões econômicas e políticas de grandes potências.
Relação com Trump aumenta expectativa sobre discursos
A sequência das manifestações na Assembleia Geral também chama atenção. Lula será o primeiro chefe de Estado a discursar, seguido por Donald Trump, representante do país anfitrião.
Em 2025, uma situação semelhante gerou repercussão quando Trump falou depois do presidente brasileiro e comentou publicamente um encontro entre os dois, afirmando que havia ocorrido uma “química” entre eles.
Leães considera possível que Trump volte a combinar críticas e gestos de aproximação. Ele descreve esse comportamento como uma estratégia de alternância entre pressão e conciliação e cita como exemplos anteriores as relações do presidente norte-americano com outros governos.
Essa interpretação também representa a análise do pesquisador e não permite antecipar qual será a posição adotada por Trump na Assembleia Geral deste ano.
O discurso de Lula deverá abordar uma agenda internacional mais ampla. A defesa do multilateralismo e de mudanças na governança mundial tem sido recorrente nas manifestações brasileiras na ONU.
O Brasil defende há anos uma reforma do Conselho de Segurança, incluindo mudanças em sua composição e maior representação de regiões como América Latina e África. O governo também sustenta que disputas internacionais devem ser solucionadas por meio da negociação e do respeito ao direito internacional.
A participação na ONU ocorre paralelamente ao processo eleitoral brasileiro. Por isso, declarações sobre soberania, democracia e interferência externa também repercutem no debate político interno.
Antes de discursar, Lula tem reunião prevista com o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. Após sua participação na Assembleia Geral, a agenda oficial prevê o retorno do presidente ao Brasil ainda nesta terça-feira.
O alcance político e diplomático do pronunciamento somente poderá ser avaliado após a apresentação do discurso e as eventuais reações de outros governos. A avaliação apresentada por Leães destaca que manifestações em fóruns internacionais são apenas uma das ferramentas utilizadas pelos países em suas relações externas.
🔍 Fontes: Brasil de Fato; Presidência da República; Ministério das Relações Exteriores.



